O mundo mudou, mas parte do debate econômico brasileiro ainda parece preso a uma realidade de décadas atrás. Durante boa parte do século passado, o grande desafio para países que buscavam crescer era encontrar dinheiro para financiar estradas, portos, usinas, indústrias e outras estruturas necessárias ao desenvolvimento.
Hoje, o cenário é diferente.
A quantidade de capital disponível globalmente cresceu de forma extraordinária nas últimas décadas. O desafio passou a ser outro: criar condições para que esse dinheiro encontre projetos confiáveis e seja transformado em produção, infraestrutura, inovação e empregos.
É justamente nesse ponto que aparece um dos principais paradoxos brasileiros.
O país possui recursos naturais estratégicos, capacidade de produção de alimentos, potencial energético, biodiversidade, minerais e um amplo mercado consumidor. Apesar disso, ainda enfrenta dificuldades para transformar essas vantagens em investimentos capazes de elevar sua produtividade.
O dinheiro existe. O problema é atraí-lo
A expansão dos mercados financeiros, dos fundos de investimento, das seguradoras, dos fundos soberanos e de grandes gestores de ativos aumentou significativamente o volume de recursos procurando oportunidades de investimento ao redor do mundo.
Isso mudou a natureza do desafio para países emergentes.
Em vez de simplesmente buscar financiamento, as economias precisam demonstrar que possuem segurança jurídica, previsibilidade regulatória, projetos consistentes e capacidade de oferecer retorno adequado aos investidores.
Para o Brasil, essa transformação representa uma oportunidade, mas também expõe antigas fragilidades.
Burocracia, complexidade tributária, insegurança jurídica, custo elevado do crédito e mudanças frequentes nas regras podem afastar justamente o capital necessário para financiar grandes projetos.
A contradição brasileira
O país possui ativos que são cada vez mais importantes para a economia mundial.
Produção agrícola, água, energia renovável, biocombustíveis, minerais estratégicos, biodiversidade e uma cadeia industrial diversificada podem colocar o Brasil em posição relevante diante de desafios como segurança alimentar, transição energética e reorganização das cadeias globais de produção.
O problema surge quando essas vantagens não conseguem se transformar em investimentos produtivos.
Um recurso natural, por si só, não constrói uma ferrovia, uma fábrica ou um centro de pesquisa. Para isso, é necessário capital, planejamento, infraestrutura e um ambiente capaz de reduzir riscos para quem pretende investir.
O peso das contas públicas
Outro ponto central do debate está na situação fiscal.
O governo possui recursos limitados e precisa escolher como utilizar o orçamento. Quando o aumento das despesas não é acompanhado por crescimento da capacidade produtiva, podem surgir efeitos como maior endividamento, pressão inflacionária e juros elevados.
Nesse cenário, uma parcela significativa dos recursos públicos pode acabar destinada ao serviço da dívida em vez de financiar investimentos capazes de aumentar a capacidade produtiva do país.
A discussão, portanto, não se resume ao tamanho do Estado, mas à qualidade e à sustentabilidade do gasto público.
O que outras economias estão fazendo?
Grandes economias vêm adotando estratégias para atrair investimentos e fortalecer setores considerados estratégicos.
A China combinou investimentos em infraestrutura, industrialização, tecnologia e exportações ao longo de décadas. Os Estados Unidos passaram a utilizar políticas industriais para estimular investimentos em áreas como semicondutores, energia e inteligência artificial.
Países europeus também procuram recuperar competitividade diante da disputa internacional por tecnologia, produção e capital.
Em comum, essas estratégias reconhecem que crescimento sustentável depende da capacidade de transformar recursos financeiros em capacidade produtiva.
O Brasil pode aproveitar uma janela de oportunidade
O cenário internacional também cria oportunidades para o Brasil.
A busca por fornecedores confiáveis de alimentos, energia e matérias-primas estratégicas pode aumentar a relevância do país nas próximas décadas.
Além disso, a posição diplomática brasileira permite manter relações comerciais com diferentes centros econômicos mundiais.
A questão é transformar essas vantagens em projetos concretos.
Isso exige infraestrutura, segurança jurídica, regras mais previsíveis, redução de entraves burocráticos e condições que estimulem investimentos de longo prazo.
O desafio para os próximos anos
O debate econômico brasileiro chega a um momento decisivo diante de uma questão fundamental: como transformar o potencial do país em crescimento efetivo?
A resposta passa menos pela simples disponibilidade de dinheiro e mais pela capacidade de criar condições para que o capital seja direcionado a atividades produtivas.
Ferrovias, portos, energia, saneamento, tecnologia, indústria e pesquisa exigem investimentos de longo prazo. Para que esses recursos cheguem ao país, investidores precisam acreditar que as regras serão respeitadas e que os projetos terão condições de funcionar durante décadas.
O Brasil, portanto, enfrenta uma situação curiosa: possui recursos e oportunidades relevantes, mas ainda precisa construir as condições necessárias para convertê-los em produtividade, renda e empregos.
A grande disputa econômica do século XXI pode não ser mais simplesmente por dinheiro. Pode ser pela capacidade de convencer o dinheiro disponível no mundo a escolher onde investir.
Foto: Reprodução / Imagem gerada por inteligência artificial
Redação – Ana Flavia