Uma cidade construída quase inteiramente de terra atravessou séculos, mas sua sobrevivência depende de um conhecimento que poderia facilmente desaparecer: a fabricação artesanal de adobes.
No litoral norte do Peru, o complexo arqueológico de Chan Chan, construído pela antiga civilização Chimú, recebe um trabalho contínuo de conservação para impedir que suas monumentais estruturas sejam destruídas pela ação do tempo e pelas condições climáticas.
Há cerca de 15 anos, o artesão Arturo Gerónimo Valiente participa diretamente desse esforço. Conhecedor das técnicas tradicionais de fabricação de tijolos de terra, ele produz os blocos utilizados em intervenções de restauração das antigas muralhas.
O trabalho começa muito antes de o adobe chegar às estruturas arqueológicas. Solo, água, areia e pequenos fragmentos de pedra são combinados até alcançar uma mistura adequada para a produção dos blocos.
Depois de moldados, os adobes passam pelo processo de secagem natural, aproveitando as condições climáticas da região. A técnica busca reproduzir características semelhantes às dos materiais utilizados originalmente na construção da cidade.
Um conhecimento aprendido desde a infância
A experiência de Valiente não surgiu apenas de estudos modernos de conservação. Segundo informações da Direção Desconcentrada de Cultura de La Libertad, ele aprendeu a produzir tijolos artesanais ainda criança, acompanhando o próprio pai.
Décadas depois, esse conhecimento tradicional passou a ter uma função ainda mais importante: ajudar a proteger um dos maiores conjuntos arqueológicos construídos em terra existentes no mundo.
Na restauração, a composição dos adobes pode receber areia fina e pedrisco, materiais que ajudam a controlar a retração e aumentar a resistência dos blocos.
Cada peça precisa apresentar características compatíveis com o trabalho de conservação, já que será utilizada em estruturas que permanecem expostas ao ambiente.
Uma cidade construída pela civilização Chimú
Chan Chan foi construída pela civilização Chimú e se transformou em um enorme centro urbano formado por palácios, muralhas, pátios e espaços cerimoniais.
Grande parte das estruturas foi construída utilizando terra, incluindo paredes decoradas com relevos que representam elementos da cultura daquele povo pré-colombiano.
A dimensão do complexo ajuda a explicar a importância de sua preservação. Em 1986, Chan Chan foi reconhecida pela Unesco como Patrimônio Mundial.
O título internacional, entretanto, não elimina os riscos enfrentados pelo sítio arqueológico.
O inimigo que chega com a chuva
A preservação de estruturas feitas de terra apresenta um desafio permanente. Chuvas intensas podem provocar erosão, rachaduras e enfraquecimento das antigas paredes.
Fenômenos climáticos associados ao El Niño aumentam ainda mais a preocupação dos especialistas, já que a região pode enfrentar episódios de precipitação muito acima do padrão habitual.
Nesse cenário, a produção constante de novos adobes permite que as equipes de conservação tenham material disponível para intervenções e reforços necessários.
Quando uma técnica antiga se transforma em ferramenta para o futuro
O trabalho realizado em Chan Chan revela uma situação curiosa: para preservar uma construção que possui centenas de anos, especialistas precisam manter vivos conhecimentos desenvolvidos muito antes da existência das técnicas modernas de restauração.
Os adobes novos não têm a função de reconstruir indiscriminadamente a cidade antiga. Eles são utilizados dentro de trabalhos de conservação destinados a proteger as estruturas existentes e reduzir os efeitos da deterioração.
Assim, a preservação de Chan Chan depende de uma combinação entre arqueologia, pesquisa, engenharia e conhecimento artesanal.
Enquanto milhares de blocos continuam sendo moldados, um saber transmitido entre gerações ganha uma nova missão: ajudar a impedir que uma das maiores cidades de barro da América desapareça sob os efeitos do tempo.
Foto: Reprodução / Direção Desconcentrada de Cultura de La Libertad
Redação – Ana Flavia