A revolução dos carros elétricos na China começa a revelar um efeito inesperado. Enquanto o país avança rapidamente na eletrificação da frota, as autoridades enfrentam um novo problema: a pressão sobre as estradas causada por veículos cada vez maiores e mais pesados.
Grande parte dos novos modelos eletrificados chineses utiliza baterias de alta capacidade, o que aumenta significativamente o peso dos veículos em comparação com carros tradicionais movidos a combustão. Alguns SUVs e modelos premium ultrapassam facilmente duas ou até três toneladas, colocando mais carga sobre o asfalto.
Segundo dados da Associação de Automóveis de Passeio da China, uma parcela crescente dos veículos lançados no mercado nacional possui dimensões maiores. Cerca de 60% dos novos carros apresentados no primeiro semestre de 2026 ultrapassaram cinco metros de comprimento, enquanto os modelos compactos perderam espaço.
O problema não está apenas no peso dos automóveis. A China também enfrenta uma queda na arrecadação usada historicamente para financiar a manutenção das rodovias. Com mais veículos elétricos circulando, o consumo de combustíveis fósseis diminui e, consequentemente, a receita obtida por meio de impostos sobre gasolina e diesel também sofre impacto.
Levantamentos apontam que o déficit destinado à manutenção das estradas chinesas já representa uma preocupação crescente. O Ministério dos Transportes do país afirma que uma parte significativa das vias locais precisa de reparos, mas os recursos disponíveis não acompanham a necessidade de investimentos.
Diante desse cenário, Pequim começou a avaliar novas formas de financiamento para manter sua extensa malha viária. Entre as possibilidades está uma revisão dos incentivos concedidos aos veículos de nova energia, incluindo elétricos e híbridos.
O governo chinês também passou a incentivar as montadoras a desenvolver veículos mais leves e eficientes, evitando que o aumento da autonomia seja resolvido apenas com baterias maiores e mais pesadas.
Até veículos de comunicação ligados ao governo passaram a questionar a tendência de carros cada vez maiores, argumentando que esses modelos podem não combinar com a infraestrutura urbana existente e aumentam a demanda por recursos.
O desafio chinês acompanha uma discussão que já começa a aparecer em outros países: como financiar estradas e infraestrutura em um futuro com menos veículos movidos a combustíveis tradicionais.
No Reino Unido, por exemplo, o governo anunciou mudanças para compensar a queda na arrecadação dos impostos sobre combustíveis, criando uma cobrança específica para motoristas de veículos elétricos a partir dos próximos anos.
A transformação do setor automotivo traz benefícios ambientais e tecnológicos, mas também exige novas soluções para adaptar cidades, estradas e modelos de financiamento a uma nova realidade de mobilidade.
Foto: Vagner Aquino/Estadão – Divulgação
Redação – Ana Flavia