A guerra não destrói apenas prédios; ela corrói as opções de sobrevivência. No leste da Ucrânia, onde cidades inteiras como Bakhmut foram reduzidas a escombros, surgiu um fenômeno que divide opiniões e expõe feridas éticas profundas: o uso da barriga de aluguel como ferramenta de reconstrução de vida. Karina Tarasenko, de apenas 22 anos, é o rosto dessa realidade. Grávida de um bebê para um casal chinês, ela vê nos R$ 95 mil que receberá a única chance de dar um teto digno à sua filha de um ano e meio.
Antes da invasão russa, a Ucrânia já era o segundo maior polo mundial dessa prática, atrás apenas dos Estados Unidos. Com a economia em frangalhos e a inflação galopante, a “oferta” de mulheres dispostas a ceder seus úteros disparou. No entanto, o processo está longe de ser um conto de fadas. O mercado é marcado por contratos rígidos onde, se um feto morre — como aconteceu em uma gravidez de gêmeos de Karina —, o pagamento é cortado impiedosamente.
A polêmica ganha contornos dramáticos com casos de abandono. Bebês como Wei, que nasceu com paralisia cerebral, acabam em instituições estatais quando os pais biológicos “desaparecem” ao saberem de deficiências. Enquanto clínicas lucram com campanhas publicitárias agressivas — que chegam a oferecer “Black Friday de bebês” —, o Parlamento ucraniano corre para votar leis que proibam estrangeiros de utilizar o serviço, sob o argumento de que a reprodução do país não pode ser tratada como mercadoria barata para o Ocidente. Para mulheres como Karina, a proibição seria o fim do sonho da casa própria; para ativistas, seria o fim de uma exploração institucionalizada.
Foto: Reprodução/BBC –
Redação – Thiago Salles