Apesar de reunir clima favorável, solo produtivo e uma das cadeias agrícolas mais consolidadas do mundo, o Brasil permanece à margem do mercado global de cânhamo industrial. O entrave, segundo especialistas do setor, é exclusivamente regulatório — um atraso que impede o País de acessar um mercado estimado em até R$ 4,9 bilhões anuais, de acordo com levantamento da consultoria Kaya Mind.

Potenciais do cânhamo estarão em discussão na ExpoCannabis de 14 a 16 de novembro. Foto: Adobe Stock
A CEO da ExpoCannabis Brasil, Larissa Uchida, afirma que a falta de uma legislação específica é o que trava o desenvolvimento da cultura. Ela lembra que, quando a proibição da cannabis foi instituída no País, não houve distinção entre usos medicinal, industrial ou adulto, o que deixou o cânhamo sem qualquer base normativa. Enquanto isso, mais de 60 países já avançaram na regulamentação e estruturaram mercados completos.
Hoje, o cultivo de cânhamo no Brasil só ocorre graças a autorizações judiciais concedidas por habeas corpus individuais ou coletivos. O Superior Tribunal de Justiça determinou que o governo regulamente o cultivo empresarial até março de 2026 — prazo que foi prorrogado. “Não há impedimento técnico. O obstáculo é político e normativo”, reforça Uchida.
A ausência de regras também paralisa investimentos. Projetos de pesquisa da Embrapa aguardam autorização formal para avançar em temas como genética, manejo e adaptação climática. Empresas do agronegócio igualmente mantêm seus planos em standby enquanto não há segurança jurídica.
O potencial produtivo do cânhamo impressiona. Estudos citados pela ExpoCannabis indicam que a rentabilidade líquida pode chegar a R$ 23 mil por hectare — superando culturas tradicionais, como soja e milho. Além disso, a planta oferece até quatro ciclos anuais, demanda menos água, regenera o solo e permite maior diversificação agrícola.
As possibilidades industriais são ainda mais amplas: sementes para alimentação e cosméticos, fibras para tecidos e bioplásticos, componentes para materiais de construção, além de flores e folhas destinadas às áreas farmacêutica e nutracêutica. No exterior, o mercado global de cânhamo deve superar US$ 100 bilhões em 2026, segundo a consultoria Prohibition Partners.
Com foco nesse potencial, a ExpoCannabis Brasil 2025 deve reunir mais de 45 mil visitantes, 280 marcas e lideranças técnicas do agronegócio. A feira dedicar á espaço a genética, nutrição, insumos agrícolas e tecnologias de rastreabilidade, além de promover encontros com pesquisadores da Embrapa sobre o projeto HempTech Brasil — iniciativa voltada à inovação e ao desenvolvimento do cultivo industrial no País.
Para Larissa Uchida, o debate regulatório é urgente, mas precisa caminhar junto de ações de esclarecimento. “A cultura do cânhamo é agrícola, tecnológica e altamente rentável. A mudança normativa abrirá portas, mas será necessário também desmistificar e capacitar o produtor para essa nova fronteira econômica.”
Jornalista responsável pela foto: Sérgio Castro / Rojas Comunicação
Redação Brasil News