Imagine um rio que não nasce de uma fonte, não segue um curso definido pela natureza e pode ter seu fluxo controlado por estruturas construídas pelo homem. É exatamente essa a característica que chama atenção no Cinturão das Águas do Ceará, uma das principais obras de infraestrutura hídrica do estado.
Com aproximadamente 145,3 quilômetros de extensão, o sistema foi projetado para transportar água recebida do Projeto de Integração do Rio São Francisco para diferentes áreas do interior cearense, especialmente regiões afetadas historicamente pela irregularidade das chuvas.
A estrutura começa na região da Barragem de Jati, onde recebe água proveniente do sistema de transposição do São Francisco. A partir dali, o recurso segue por uma complexa rede formada por canais revestidos de concreto, túneis, sifões e grandes tubulações.
Em vez de depender exclusivamente de um leito natural, o sistema utiliza a engenharia para determinar o caminho percorrido pela água. O relevo da região é aproveitado em determinados trechos para permitir o deslocamento por gravidade, enquanto estruturas específicas possibilitam a passagem do fluxo por vales, estradas e outras barreiras naturais.
Uma obra criada para enfrentar a seca
A ideia está diretamente ligada a uma questão que há décadas desafia o Nordeste brasileiro: como garantir água em áreas onde os períodos de estiagem podem ser prolongados?
O Cinturão das Águas foi concebido para funcionar de maneira integrada ao sistema de transposição do Rio São Francisco. A água captada no São Francisco percorre o Eixo Norte do projeto até alcançar a estrutura em Jati. De lá, pode ser direcionada para o sistema construído no Ceará.
O planejamento prevê uma capacidade de transporte que pode chegar a 30 metros cúbicos de água por segundo.
Ao longo do trajeto, derivações permitem que parte do recurso seja encaminhada para sistemas de abastecimento, reservatórios e outras estruturas responsáveis pela distribuição hídrica.
De onde veio a ideia?
A implantação do projeto começou em 2013, durante o governo estadual de Cid Gomes, com participação de recursos federais relacionados às obras de integração do Rio São Francisco.
A própria transposição do São Francisco, que fornece água ao sistema, começou a ser executada em escala nacional durante o segundo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a partir de 2007, após décadas de discussões sobre a possibilidade de levar as águas do rio para regiões do semiárido.
Com a integração entre os dois projetos, a água percorre um caminho que combina grandes obras de engenharia e aproveitamento das características naturais do terreno.
Obra ainda não chegou ao fim
Apesar da dimensão do projeto, o Cinturão das Águas ainda não está completamente concluído.
Em 2026, a obra entrou em uma etapa avançada de implantação. Segundo informações divulgadas pelo Governo do Ceará, o empreendimento chegou a aproximadamente 92% de execução.
Em março, um novo trecho de cerca de 15 quilômetros foi liberado para receber água, ampliando o alcance da estrutura.
A conclusão integral, entretanto, ainda depende da execução de etapas restantes, incluindo obras, equipamentos e serviços complementares.
Mesmo sem estar totalmente finalizado, o sistema já permite que a água do São Francisco percorra parte do interior cearense por uma estrutura inteiramente construída para esse propósito.
O chamado “rio artificial” não substitui os rios naturais da região, mas funciona como uma gigantesca infraestrutura de transporte e distribuição de água. Na prática, ele representa uma tentativa de reduzir os impactos da seca e aumentar a segurança hídrica de municípios do sertão.
Foto: Reprodução/Imagem institucional
Redação – Ana Flavia