A guinada de Lobão chama atenção pela intensidade das paixões que alimentou ao longo dos anos. Em 1989, no auge da redemocratização, o roqueiro chegou a entoar o jingle “Lula-lá” ao vivo no palco do Domingão do Faustão, na TV Globo, dando aval público à primeira candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Contudo, o romance com os petistas ruiu no início dos anos 2000 com o escândalo do Mensalão, transformando o artista em uma das vozes mais ferozes do antipetismo e entusiasta do impeachment de Dilma Rousseff em 2016.
Em 2018, o cantor decidiu apostar todas as suas fichas na candidatura de Jair Bolsonaro, enxergando na figura do ex-capitão uma espécie de rebeldia “rock n’ roll” capaz de peitar o sistema político tradicional. A aliança, porém, durou pouco. Logo nos primeiros meses de mandato, estarrecido com declarações do ex-presidente contra estudantes e com os rumos do governo, Lobão rompeu ruidosamente com o grupo, admitindo a frustração: “Achei que fosse uma nova direita, mas a coisa era tosca mesmo. Chegou uma hora em que vi que precisávamos tirar esse cara.”
Agora, ao atingir quase sete décadas de vida, o músico afirma que perdeu completamente a paciência e a disposição para os embates partidários. Em entrevistas recentes, classificou o ambiente das campanhas eleitorais como “a coisa mais pentelha e chata que existe” e detonou a falta de alternativas reais de renovação no Brasil, garantindo que passará longe das urnas na votação deste mês.
Com uma discografia histórica e uma biografia marcada pelo inconformismo, Lobão prefere hoje se dedicar exclusivamente à música, deixando para trás o papel de debatedor político que incendiou o país por anos. Para o roqueiro, o cenário político nacional virou um ciclo vicioso de decepções do qual ele não pretende mais fazer parte.
YouTube · Funk Mídia
Foto: Reprodução / Instagram / Getty Images | Redação – Thiago Salles