O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará nesta terça-feira (22), em Nova York, um dos discursos internacionais mais importantes de sua agenda em 2026, em meio à reta final da campanha presidencial brasileira.
Como ocorre tradicionalmente desde 1955, o Brasil será o primeiro país a discursar no Debate Geral da Assembleia Geral das Nações Unidas, seguido pelos Estados Unidos. Neste ano, Lula será sucedido na tribuna pelo presidente norte-americano Donald Trump.
Embora a maior parte da fala de Lula deva abordar temas internacionais, a política brasileira também estará presente.
Segundo um assessor próximo do presidente ouvido pela Reuters, Lula pretende defender a soberania nacional e condenar eventuais tentativas de interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro. A orientação, segundo a fonte, é transmitir a mensagem sem mencionar nominalmente governos ou autoridades estrangeiras.
Campanha teme interferência dos Estados Unidos
De acordo com a Reuters, uma das preocupações dentro da campanha de Lula é uma possível atuação de integrantes do governo americano favorável ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário do presidente na eleição de outubro.
A reportagem ressalta, porém, que Trump não declarou publicamente apoio a um candidato na eleição presidencial brasileira.
O presidente americano recebeu Flávio Bolsonaro na Casa Branca, enquanto integrantes de sua administração fizeram manifestações críticas ao governo Lula. Segundo a Reuters, auxiliares de Trump também demonstraram interesse em discutir o processo eleitoral brasileiro com representantes ligados ao senador.
Diante desse cenário, o discurso brasileiro deve defender o princípio de que decisões eleitorais pertencem aos cidadãos brasileiros.
Segundo a fonte ouvida pela Reuters, a mensagem deverá ser apresentada de maneira “polida, mas firme”.
Relação com Trump também entra no cálculo político
Apesar das divergências entre Brasília e Washington, integrantes do governo brasileiro avaliam que a relação pessoal construída recentemente entre Lula e Trump pode reduzir tensões.
Os dois tiveram uma breve conversa durante a Assembleia Geral da ONU em 2025 e, desde então, mantiveram outros contatos.
Segundo a Reuters, a avaliação dentro da campanha de Lula é que essa aproximação poderia dificultar uma eventual manifestação pública de Trump contra o presidente brasileiro ou contra o resultado da eleição caso Lula seja reeleito. Essa é, porém, uma avaliação atribuída a integrantes da campanha, e não uma posição anunciada pelo governo americano.
Tarifas aumentaram tensão entre Brasília e Washington
A relação bilateral atravessou um período de forte desgaste em 2025.
Trump impôs tarifas de 50% sobre determinados produtos brasileiros e vinculou publicamente a medida, entre outros argumentos, ao tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
As tensões diplomáticas continuaram em 2026. Em julho, a Reuters informou que o governo brasileiro ainda não havia concedido a aprovação diplomática necessária para que o indicado de Trump ao cargo de embaixador dos Estados Unidos assumisse oficialmente o posto, aprofundando o atrito entre os dois governos.
Apesar dessas divergências, os dois presidentes mantiveram canais de comunicação.
Não havia, até esta segunda-feira (21), reunião bilateral formal entre Lula e Trump anunciada para a passagem dos dois por Nova York.
Lula se reúne com Mamdani, Orsi e Bernie Sanders
Antes de subir à tribuna da ONU, Lula cumpre uma série de compromissos políticos em Nova York.
A agenda desta segunda-feira inclui reuniões com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e com o senador americano Bernie Sanders.
O encontro com Mamdani já vinha sendo considerado pelo Itamaraty antes da viagem. O prefeito de Nova York, integrante do Partido Democrata, tornou-se uma das figuras de destaque da ala progressista americana e um crítico político de Trump.
ONU confirma discurso para terça-feira
Há uma diferença importante em relação a algumas versões publicadas nesta segunda-feira.
A agenda oficial das Nações Unidas estabelece que o Debate Geral da 81ª Assembleia Geral começa em 22 de setembro, terça-feira, e segue até o dia 28. O Brasil abre a sequência de discursos dos Estados-membros e os Estados Unidos falam logo depois.
Assim, Lula passa esta segunda-feira dedicado a reuniões em Nova York e sobe à tribuna da Assembleia Geral na terça.
O contexto eleitoral torna o discurso especialmente sensível: faltam poucas semanas para a votação presidencial brasileira, e pesquisas divulgadas nesta segunda-feira mostram uma disputa apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro em cenários de segundo turno, com diferenças dentro da margem de erro em alguns levantamentos.
Ao falar de soberania diante de líderes de dezenas de países, Lula deverá, portanto, combinar a agenda diplomática tradicional do Brasil com uma mensagem diretamente relacionada ao ambiente político doméstico — sem, segundo seus assessores, transformar o discurso em um ataque nominal a Trump ou aos Estados Unidos.
Foto: Adriano Machado/Reuters –
Redação – Thiago Salles