Lagarto citado no Enem 2025 revela origem surpreendente do Ozempic, hoje um dos remédios mais usados do mundo.

Saúde e Bem Estar

A segunda etapa do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem 2025), realizada neste domingo (16/11), trouxe um elemento inesperado para quem prestou a prova de Ciências da Natureza. A questão de número 99 mencionou o lagarto-de-gila — um réptil venenoso encontrado em regiões áridas da América do Norte — para explicar como esse animal se tornou peça-chave no desenvolvimento de um dos medicamentos mais populares da atualidade: o Ozempic.

Do deserto do Arizona aos hospitais do mundo: o animal que virou base de um dos remédios mais usados do século – (crédito: Josh Olander/CC/Wikimedia Commons)

O enunciado citava a habilidade do lagarto em controlar seus níveis de glicose, mas a história por trás desse fenômeno vai muito além. Nas décadas de 1980 e 1990, pesquisadores como John Pisano, Jean-Pierre Raufman e John Eng investigaram os compostos presentes na saliva do animal e identificaram a exendina-4, uma molécula capaz de atuar no mesmo receptor do hormônio humano GLP-1, fundamental para o controle da glicemia.

O diferencial dessa substância era sua resistência à rápida degradação pelo organismo, o que abriu caminho para aplicações clínicas. Após convencer a emergente Amylin Pharmaceuticals a desenvolver a molécula, os estudos avançaram rapidamente. Em 2005, surgiu o exenatide, comercializado como Byetta, primeiro medicamento baseado nesse princípio biológico. A droga não só reduzia a glicemia de pacientes com diabetes tipo 2 como também estimulava perda de peso, fenômeno que mais tarde ganharia protagonismo mundial.

Paralelamente, outros grupos de pesquisa buscavam criar versões sintéticas do GLP-1 humano com ação mais prolongada. A Novo Nordisk, empresa dinamarquesa, liderou esse movimento ao investir em moléculas mais estáveis e eficazes. O esforço resultou, inicialmente, na liraglutida (Victoza), em 2010, e posteriormente na semaglutida, aprovada em 2017 sob o nome Ozempic.

A combinação de aplicação semanal, maior potência na ativação de receptores cerebrais e segurança clínica consolidou a semaglutida como referência no tratamento moderno do diabetes tipo 2. Em doses mais elevadas, a substância se mostrou altamente eficaz para controle da obesidade, originando o medicamento Wegovy, aprovado em 2021.

O mecanismo que explica o sucesso desses fármacos envolve uma complexa rede de comunicação entre o intestino, o sistema nervoso e o cérebro. Ao retardar o esvaziamento gástrico e aumentar a sensação de saciedade, os análogos de GLP-1 ajudam no controle do apetite. Ao mesmo tempo, estimulam a liberação de insulina por vias hormonais e neurais, simulando parte das respostas que o corpo produz naturalmente ao ingerir alimentos.

A presença do lagarto-de-gila na prova do Enem não apenas testou o conhecimento dos estudantes, mas trouxe à tona uma das trajetórias científicas mais interessantes da medicina contemporânea: a transformação de um componente de um veneno em uma das classes de medicamentos mais revolucionárias do século.


Foto: Josh Olander (Wikimedia Commons)
Redação Brasil News

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