Houthis avançam no Iêmen, colocam Arábia Saudita contra a parede e expõem limites do apoio dos EUA.

Internacional

Os houthis deixaram de ser apenas uma força insurgente concentrada nas montanhas do norte do Iêmen para ocupar uma posição cada vez mais relevante no equilíbrio de poder do Oriente Médio. Nas últimas semanas, o movimento alinhado ao Irã realizou uma ofensiva de grande escala pela costa do Mar Vermelho e conquistou posições consideradas estratégicas para o controle das rotas marítimas da região.

Entre os principais avanços está a tomada do porto de Mocha, no oeste do Iêmen, além da chegada a ilhas e posições próximas ao estreito de Bab el-Mandeb, uma das passagens marítimas mais importantes do mundo. O estreito conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e está diretamente ligado às rotas comerciais que seguem em direção ao Canal de Suez.

O movimento controla a capital, Sanaa, e grande parte do norte do país. Segundo a Reuters, as áreas sob influência houthi concentram uma parcela expressiva da população iemenita. A organização surgiu ligada à comunidade zaidita, um ramo do islamismo xiita, e tornou-se uma força militar poderosa ao longo de mais de uma década de guerra civil.

A aproximação entre os houthis e o Irã é um dos elementos centrais do conflito. Fontes regionais e ocidentais citadas pela Reuters afirmam que Teerã fornece apoio militar, treinamento e armamentos ao grupo. Os houthis reconhecem relações políticas com o Irã, mas rejeitam a descrição de que atuem simplesmente como representantes de Teerã e afirmam tomar suas próprias decisões.

Avanço surpreendeu forças apoiadas pelos sauditas

A ofensiva recente encontrou pouca resistência em determinados pontos. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, divisões entre facções iemenitas contrárias aos houthis, falhas de inteligência e uma preparação militar que teria passado despercebida contribuíram para o rápido avanço.

As forças apoiadas pela Arábia Saudita perderam territórios e deixaram para trás equipamentos militares. Fontes regionais afirmaram à Reuters que parte desse material inclui armamentos fornecidos anteriormente pelos próprios sauditas e pelos Estados Unidos.

A ofensiva também veio acompanhada de novos ataques contra território saudita. Infraestruturas militares e petrolíferas passaram novamente a ser alvo de mísseis e drones, enquanto Riad respondeu intensificando bombardeios contra posições houthis no Iêmen.

O resultado colocou a Arábia Saudita diante de um cenário delicado. Depois de anos tentando reduzir seu envolvimento direto no conflito iemenita, o reino voltou a buscar apoio de parceiros internacionais diante da expansão houthi.

E onde entram os Estados Unidos?

A situação também criou um problema estratégico para Washington.

A Arábia Saudita buscou apoio militar americano contra os houthis, mas o governo de Donald Trump não autorizou uma nova campanha direta de ataques. Os Estados Unidos mantiveram cooperação de inteligência e apoio à defesa saudita, mas evitaram assumir diretamente outra frente militar no Iêmen.

Essa decisão passou a ser interpretada por alguns analistas como um sinal dos limites das garantias de segurança oferecidas por Washington a seus aliados no Golfo. A Reuters ouviu especialistas que consideram que a ausência de uma intervenção americana favoreceu a posição dos houthis e reduziu a margem de ação saudita. Trata-se, porém, de uma avaliação de analistas, e não de uma conclusão oficial de que os Estados Unidos tenham sido militarmente “derrotados”.

A situação ganhou ainda mais relevância depois que representantes americanos mantiveram contatos reservados com integrantes do movimento houthi em Omã. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, as conversas ocorreram em meio à tentativa de evitar novos ataques contra navios americanos e ampliar os mecanismos de contenção da crise.

Controle de rota estratégica preocupa mercados

O avanço sobre Bab el-Mandeb amplia a capacidade dos houthis de interferir em uma rota fundamental para petróleo, mercadorias e contêineres.

Esse poder ganhou importância adicional diante das tensões no Estreito de Hormuz. Caso os dois corredores sofram interrupções simultâneas, o impacto poderia atingir cadeias de abastecimento e preços de energia muito além do Oriente Médio.

A escalada já vem sendo acompanhada por aumento dos preços do petróleo e redução da movimentação de navios em algumas das principais rotas marítimas da região.

População novamente paga o preço

Por trás da disputa geopolítica, a população do Iêmen enfrenta uma nova deterioração humanitária.

Mais de 100 mil pessoas foram deslocadas pela retomada dos combates, segundo dados recentes das Nações Unidas citados pela Reuters. A ONU estima ainda que mais de 21 milhões de pessoas precisarão de algum tipo de assistência humanitária no país em 2026.

A expansão dos houthis, portanto, representa muito mais do que uma vitória territorial. Ela altera o equilíbrio militar no Iêmen, aumenta a pressão sobre a Arábia Saudita, amplia a influência estratégica iraniana e coloca novamente o Mar Vermelho no centro das tensões internacionais.

Foto: Khaled Abdullah/Reuters
Redação – Thiago Salles

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