Guerra ao crime! EUA oficializam PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas e ligam alerta na Faria Lima.

Internacional

Em uma cartada que altera drasticamente o tabuleiro da segurança pública e das relações internacionais na América Latina, entrou em vigor oficialmente nesta sexta-feira (5 de junho de 2026) a designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) pelo governo dos Estados Unidos. A medida cumpre o cronograma da linha dura adotada pelo presidente Donald Trump e pelo secretário de Estado, Marco Rubio, equiparando juridicamente as duas maiores facções criminosas do Brasil aos mais perigosos cartéis transnacionais, como Sinaloa e Jalisco Nova Geração (México), o Clã do Golfo (Colômbia) e o Trem de Arágua (Venezuela).

Com a inclusão imediata dos dois grupos na temida lista do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac), do Departamento do Tesouro americano, todos os bens, contas bancárias e propriedades que o PCC, o CV ou seus laranjas possuam nos EUA estão sumariamente bloqueados. Mais do que um ato simbólico, a classificação muda em definitivo o tom diplomático e dá início a um cerco financeiro asfixiante, além de abrir caminho para que criminosos dessas organizações capturados e extraditados para solo americano enfrentem penas de prisão adicionais de até 20 anos por narcoterrorismo e apoio material ao terrorismo.

O Impacto no Coração Financeiro do Brasil: O Risco “Faria Lima”

Se nos morros e nas periferias a rotina operacional do tráfico pouco muda no primeiro momento, no universo corporativo o impacto é imediato e severo. Especialistas em direito internacional e comércio exterior alertam que a definição americana para “apoio material” é extremamente abrangente. Qualquer indivíduo, consultoria ou empresa que forneça — mesmo sem dolo ou intenção — serviços, movimentações financeiras, suporte logístico ou consultoria a pessoas ligadas a essas facções pode sofrer sanções civis e criminais avassaladoras nos EUA.

De acordo com o economista Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil, o ecossistema financeiro nacional, centralizado na Faria Lima, terá que passar por uma reengenharia profunda e urgente em seus departamentos de compliance e auditoria:

  • Sufoco Bancário: Bancos e fintechs brasileiras que operam com correspondentes nos EUA ou que possuam investidores americanos serão obrigados a realizar uma varredura rigorosa em suas carteiras de clientes. Caso o Tesouro americano identifique que fundos ou contas de fachada do PCC ou do CV passaram por uma instituição sem a devida inteligência, essa entidade pode ser banida das redes globais de pagamento (como Visa e Mastercard), tornando seus cartões inúteis mundialmente, como ocorreu com três bancos mexicanos em 2025.
  • Agronegócio e Logística sob Lupa: Como as facções brasileiras já demonstraram alto nível de infiltração na cadeia logística de portos (como o de Santos) e no setor imobiliário, empresas de transporte e exportadores de commodities terão seus contratos minuciosamente revisados por parceiros internacionais temerosos de punições nos EUA.
  • Explosão de Custos: A experiência do México após sofrer sanções idênticas no ano passado aponta para um encarecimento automático de 8% a 12% nos custos logísticos e uma elevação de até 30% nos seguros de transporte de cargas em áreas de risco, devido à necessidade de auditorias constantes.

O Tabuleiro Latino-Americano: Intervenções, Mortes e Caça a Políticos

A ofensiva americana contra o narcoterrorismo tem deixado um rastro de extrema fricção geopolítica nos vizinhos do Brasil. No México, a pressão de Washington abalou os alicerces do governo da presidente Claudia Sheinbaum. Recentemente, os EUA indiciaram dez oficiais de alto escalão do Estado de Sinaloa, incluindo o próprio governador Rubén Rocha Moya, sob acusação de conspirar com o cartel local em troca de apoio político. O clima azedou de vez após a denúncia de operações clandestinas e letais da CIA em solo mexicano, incluindo um acidente de carro que matou dois agentes americanos não autorizados que investigavam laboratórios de fentanil.

Na Colômbia, a investida do Tesouro americano chegou a golpear o círculo íntimo do presidente Gustavo Petro. O mandatário, seu filho Nicolás Petro, a primeira-dama e o ministro do Interior foram incluídos na lista de associados ao narcotrabalho por supostamente permitirem a explosão do Clã do Golfo, que agora tenta se financiar através do comércio ilegal de ouro. Na Venezuela, o cerco atingiu o ápice com a captura armada e prisão do próprio Nicolás Maduro em janeiro deste ano, evento que acabou provocando o desmantelamento e a fragmentação do Trem de Arágua, cujos líderes sobreviventes na Colômbia já enviam cartas desesperadas pedindo acordos de desmobilização e paz.

O Efeito Colateral: Sofisticação e Desdolarização

Apesar do otimismo de Washington, criminologistas fazem um alerta importante sobre os perigos ocultos dessa estratégia. O professor Niko Passas, da Universidade Northeastern, pondera que a aplicação cirúrgica de sanções financeiras e o bloqueio do dólar podem empurrar o PCC e o Comando Vermelho para uma reengenharia tecnológica ainda mais sofisticada, acelerando o uso de criptoativos e moedas alternativas fora do alcance dos satélites do Tesouro americano.

A tese é de que a pressão contínua funciona, por vezes, como um darwinismo criminal: sufocados no sistema tradicional, os grupos que sobrevivem tornam-se organizações mais profissionais, resilientes e imunes à jurisdição tradicional, forçando o setor privado legalizado a pagar a conta mais alta de toda a operação.

Foto: AFP via Getty Images

Redação – Thiago Salles

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