Filosofia no prato: Como a Korin transformou preceitos religiosos em um império de alimentos naturais e orgânicos.

Negócios

O amanhecer no município de Ipeúna, a cerca de 200 quilômetros da capital paulista, dita um ritmo produtivo singular. Assim que os caminhões de distribuição deixam os pátios carregados, bandos de galinhas de penas castanhas ganham os arredores dos galpões para ciscar livremente. O cenário ilustra a rotina do Grupo Korin (cujo nome significa “círculos de luz”), marca pioneira que se consolidou nas gôndolas dos maiores supermercados do país como sinônimo de frangos e ovos criados sem o uso de antibióticos ou rações transgênicas, estendendo hoje seu portfólio para hortaliças, mel, peixes e bioinsumos.

Por trás das embalagens que estampam selos de bem-estar animal, há uma forte engrenagem teológica. A empresa foi estruturada para disseminar de forma prática a filosofia de Mokiti Okada (1882–1955), pensador japonês e fundador da Igreja Messiânica Mundial. Após se curar de uma grave tuberculose na juventude priorizando uma dieta estritamente vegetal e livre de insumos químicos, Okada estabeleceu a agricultura natural como um dos pilares de sua doutrina espiritual. Essa conexão se manifesta de forma explícita na cultura corporativa: anualmente, no mês de agosto, funcionários e diretores se reúnem em um gramado cercado de flores para realizar um sufrágio em agradecimento ao espírito das aves abatidas, orando por sua transição.

O preço da pureza e a fórmula guardada a sete chaves

A opção por romper com os padrões tradicionais da avicultura intensiva cobra seu preço na planilha de custos. De acordo com o presidente do grupo, Edson Matsui, a alimentação das aves representa entre 60% e 70% de todo o custo operacional da Korin. Diferente da indústria convencional — que reaproveita bicos, penas e vísceras para baratear a ração —, a empresa utiliza uma fórmula exclusiva baseada estritamente em grãos não modificados geneticamente, como milho, soja e sorgo, descartando subprodutos que são repassados para o setor de rações pet.

Categoria de ProdutoImpacto no Custo FinalDiferencial de Manejo
Linha NaturalAté 3x mais cara que a tradicionalRação livre de transgênicos e zero antibióticos
Linha OrgânicaAté 5x mais cara que a tradicionalGrãos com certificação orgânica e mais espaço

O rigor no manejo exige auditorias constantes em dezenas de granjas parceiras (denominadas “horizontais”). O nível de restrição sanitária é severo: em períodos de alerta para a gripe aviária, as aves são mantidas em confinamento protegido para evitar o contato com vetores silvestres. O bem-estar estende-se ao comportamento natural das aves, que vivem em ambientes de menor densidade e contam com a presença de galos nos viveiros para estabilizar o estresse do lote.

“A Korin não tem pernas para abastecer o mundo inteiro sob este modelo restrito. Nosso papel principal é validar a viabilidade do sistema e licenciar esse know-how para que o mercado tradicional mude suas diretrizes”, pondera Edson Matsui.

Inovação em bioinsumos e a virada do mercado global

Paralelamente aos aviários, o Centro de Pesquisa Mokiti Okada, fundado em 1989, atua como o núcleo tecnológico do grupo. Foi testando formulações em um tradicional campo de tomates — que registrou mais prejuízos do que lucros durante seus primeiros 15 anos — que a empresa desenvolveu sua linha de bioinsumos. Através de processos de fermentação de bactérias benéficas, a Korin produz hoje higienizadores, fortificantes de solo e compostos capazes de neutralizar o gás amônia gerado pelas fezes das aves, protegendo o sistema respiratório dos animais sem recorrer a defensivos sintéticos.

O modelo disruptivo que gerava desconfiança e deboche na indústria agropecuária há três décadas, classificado inicialmente como “irresponsável”, hoje dita tendências de mercado e barreiras alfandegárias. Recentemente, a União Europeia impôs restrições à carne brasileira devido ao uso generalizado de antimicrobianos como promotores de crescimento na pecuária tradicional. À medida que os mercados globais elevam suas exigências de biossegurança e sustentabilidade, as práticas espirituais e científicas da Korin deixam o nicho alternativo para se posicionar como o provável futuro da produção de proteína animal no país.

Foto: Vitor Serrano / BBC / Redação – Thiago Salles

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