O “Casamento Fake”: A união que chocou o clã Moraes Pessanha
A pacata rotina política e social da Região Serrana fluminense foi sacudida por uma revelação estarrecedora que mistura laços familiares, acusações de estelionato e um suposto desvio milionário de recursos da previdência estadual. Familiares da ex-procuradora do Estado do Rio de Janeiro, Ângela Marília de Moraes Pessanha, quebraram o silêncio e expuseram o absoluto sentimento de indignação e espanto ao descobrirem que a idosa — falecida em 2017 — supostamente mantinha uma união estável registrada em cartório com Hélio Luiz Fazoli de Moraes, atual vice-prefeito do município de Trajano de Moraes.
O nó górdio do escândalo reside no fato de que Hélio foi formalmente casado por quase duas décadas com Adriana Pessanha, sobrinha direta da procuradora. Apenas dez meses após o divórcio do casal, em 2013, o político oficializou a união estável com a tia de sua ex-mulher, que na época já contava com mais de 80 anos de idade. Para os parentes consanguíneos, a relação amorosa nunca passou de um artifício jurídico fictício, um verdadeiro “casamento fake” arquitetado friamente com um único objetivo: abocanhar a robusta e vitalícia pensão por morte da servidora pública aposentada.
Engenharia do golpe: Salário de R$ 70 mil e repasses misteriosos
As investigações conduzidas pela Promotoria de Justiça de Trajano de Moraes detalham o que o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) classificou como uma audaciosa simulação fraudulenta. De acordo com a denúncia aceita pela Justiça, logo após firmar o documento de união estável, o vice-prefeito também garantiu uma procuração com amplos poderes que lhe dava controle irrestrito sobre a movimentação das contas bancárias de Ângela. O plano traçado pelo político e por sua ex-esposa visava blindar o patrimônio da idosa e preparar o terreno para o pós-morte.
<>. Embora o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) tenha desconfiado da rapidez do arranjo e negado o pedido de pensão formulado pelo político, o fundo de previdência estadual — o RioPrevidência — aprovou o benefício. A partir daí, o vice-prefeito passou a receber mensalmente vencimentos brutos que ultrapassavam a marca de R$ 70 mil. Ao longo de mais de sete anos de saques contínuos, estima-se que a dupla tenha embolsado quase R$ 5 milhões (chegando a R$ 6,8 milhões em valores brutos acumulados). A investigação bancária revelou ainda que Hélio realizava transferências sistemáticas de vultosas quantias para a conta da própria ex-mulher, Adriana, em uma espécie de rateio ou “mesada” que alimentava o esquema familiar.
Rioprevidência corta benefício e Justiça decreta bloqueio de bens
Diante da robustez dos indícios colhidos pelo Ministério Público — que apontam que a ex-procuradora foi gradualmente isolada do convívio com outros parentes nos seus últimos anos de vida —, o Poder Judiciário determinou uma série de medidas cautelares severas para estancar o sangramento do erário público e garantir o ressarcimento aos cofres do Estado.
- Suspensão Imediata: O RioPrevidência atendeu à ordem judicial e bloqueou o pagamento da pensão de mais de R$ 70 mil que o político recebia.
- Bloqueio Patrimonial: A Justiça decretou o confisco de bens móveis e imóveis dos réus, congelando contas bancárias, aplicações financeiras, veículos e investimentos.
- Ação Penal: Hélio Luiz Fazoli de Moraes e Adriana Canes Peçanha tornaram-se réus formais e vão responder judicialmente pelos crimes de falsidade ideológica e estelionato qualificado.
Pioneirismo histórico maculado pelo escândalo
A figura central no coração da disputa é uma mulher cuja trajetória original exalava vanguarda e intelectualidade. Nascida em 1931, Ângela Marília de Moraes Pessanha quebrou barreiras de gênero ao se tornar uma das primeiras mulheres a ingressar nos quadros jurídicos da Procuradoria do Estado do Rio de Janeiro, de onde se aposentou em 1985. Além de sua brilhante atuação no direito, Ângela dedicou-se à literatura como escritora, jornalista e poeta. Como não teve filhos, acumulou bens valiosos e imóveis ao longo de sua jornada, patrimônio este que acabou virando alvo da disputa que agora corre nos tribunais.
Em contrapartida, a defesa dos investigados nega veementemente qualquer tipo de irregularidade. Em nota oficial emitida à imprensa, os advogados de Hélio Luiz e Adriana argumentam que a denúncia é baseada em narrativas distorcidas, infladas pelo acirrado cenário político local da Região Serrana. A defesa sustenta que a investigação foi conduzida de forma unilateral e garante que a imagem e a dignidade da ex-procuradora seriam defendidas justamente por quem realmente cuidou de sua saúde na velhice, apostando na absolvição total e na comprovação de inocência dos acusados ao longo do processo judicial.
Foto: Reprodução / TV Globo
Redação – Thiago Salles