O açaí, símbolo da cultura amazônica e agora também da COP30 em Belém (PA), é o novo protagonista da bioeconomia brasileira. O fruto, antes associado à subsistência das populações ribeirinhas, transformou-se em um motor econômico sustentável, movimentando R$ 7,77 bilhões em 2024, segundo dados do IBGE.
Com 1,74 milhão de toneladas produzidas em mais de 260 mil hectares, o Pará responde por cerca de 90% da produção nacional, seguido por Amapá e Amazonas. Nos últimos três anos, o setor cresceu 78%, consolidando o açaí como uma das cadeias produtivas mais promissoras da Amazônia.
“O açaí deixou de ser apenas extrativismo e passou a representar um modelo de manejo florestal sustentável, gerando renda e garantindo alimento para milhares de famílias”, explica Alfredo Homma, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental.
Do extrativismo à produção sustentável
Grande parte do sucesso vem da transição para o manejo planejado. Segundo Homma, cerca de 225 mil hectares na região Norte já operam sob esse modelo, o que aumentou a produtividade e permitiu que o fruto esteja disponível durante todo o ano. “O consumo, que era sazonal, tornou-se permanente, impulsionando o mercado local e nacional”, afirma.
O açaí manejado forma bosques homogêneos de açaizeiros, garantindo colheitas regulares e preservando o equilíbrio ambiental. Em comunidades ribeirinhas, ele continua sendo base alimentar e fonte de renda: propriedades de 5 a 10 hectares produzem até 36 toneladas por safra, sendo parte consumida pela própria família.
Mercado interno em expansão e desafios da produção
O mercado interno ainda domina o consumo, representando 80% da demanda total, segundo o Sebrae. O fruto é amplamente consumido nas capitais do Sudeste e Centro-Oeste, com destaque para São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. No Pará, o consumo per capita varia de 15 a 26 quilos por ano, evidenciando sua importância na alimentação regional.
Apesar da expansão, o setor enfrenta desafios estruturais. A falta de mão de obra qualificada e os altos custos de irrigação são os principais gargalos. “O cultivo em terra firme exige irrigação constante, o que aumenta os custos e limita o acesso de pequenos produtores”, explica Victor Ferreira, analista de competitividade do Sebrae.
Além disso, produtores que desejam exportar enfrentam barreiras de certificação e requisitos internacionais. “Para competir no mercado global, é preciso garantir rastreabilidade e certificações como a Global Gap. Por isso, o Sebrae apoia cooperativas e capacita agricultores a atender essas normas”, complementa Ferreira.
Exportações e protagonismo global
O açaí brasileiro já chega a mais de 50 países, com destaque para Estados Unidos, Japão, Alemanha e Austrália. Em 2024, as exportações renderam US$ 2,7 milhões. O produto também conquista espaço na indústria de alimentos, cosméticos e suplementos naturais, ampliando seu alcance e valor agregado.
Empresas brasileiras começam a ganhar visibilidade internacional. A rede Açaí Concept, fundada em Maceió (AL) em 2014, tornou-se um dos maiores exemplos de expansão global do setor, com 50 lojas no exterior e planos de abrir 500 novas unidades em cinco anos.
“O mundo quer o sabor e a energia do Brasil. Expandir o açaí é levar um pedaço da Amazônia para o planeta”, afirma Rodrigo Melo, CEO da Açaí Concept.
Açaí: símbolo da bioeconomia e da segurança alimentar
Mais do que um produto de exportação, o açaí é um símbolo de segurança alimentar e identidade cultural amazônica. Seu manejo sustentável contribui para a preservação da floresta e o desenvolvimento das comunidades tradicionais, reforçando o papel da Amazônia na agenda climática global.
“O açaí é o elo entre a natureza, a economia e a cultura amazônica. Representa o futuro da bioeconomia brasileira”, resume Victor Ferreira, do Sebrae.
📸 Fotos: Ronaldo Rosa / Divulgação
✍️ Redação Brasil News