O mercado brasileiro de geração distribuída de energia solar começa a atravessar uma fase que pode redefinir a composição do setor. Depois de anos de expansão acelerada, empresas passaram a enfrentar um cenário de maior competição, redução das margens e dificuldades para transformar toda a energia produzida em receita.

O alerta ganhou força após o pedido de recuperação judicial do Grupo Pontal-Thopen, que acumula aproximadamente R$ 4,56 bilhões em dívidas. Embora o caso tenha características próprias, investidores e agentes do setor avaliam que os problemas enfrentados pela companhia podem revelar dificuldades mais amplas entre empresas que cresceram rapidamente e assumiram grandes compromissos financeiros para ampliar seus portfólios.
Um dos principais desafios está relacionado ao volume de créditos de energia acumulados. Estimativas citadas no mercado apontam para pelo menos R$ 2 bilhões em créditos que ainda precisam ser compensados. Na geração distribuída, quando a energia produzida não é imediatamente utilizada, ela pode se transformar em créditos vinculados ao consumidor e à área de concessão da distribuidora.
Esses créditos podem permanecer disponíveis por até 60 meses. O problema é que, enquanto as usinas continuam gerando eletricidade e acumulando créditos, os empreendedores precisam manter despesas com operação, manutenção, arrendamento das áreas e financiamento dos projetos. Em regiões onde existe excesso de oferta, encontrar consumidores suficientes para absorver essa produção pode se tornar uma tarefa cada vez mais difícil.
A própria Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) analisa o tema por meio de uma consulta pública voltada ao tratamento regulatório e contábil dos créditos que acabam expirando. Uma das discussões envolve a possibilidade de criar mecanismos que facilitem a transferência desses créditos entre consumidores que estejam dentro das mesmas condições regulatórias.
A pressão financeira já aparece em diferentes empresas do segmento. A Órigo Energia, por exemplo, terminou 2025 com dívida líquida de R$ 3,6 bilhões e registrou prejuízo de R$ 669 milhões. A companhia também realizou uma emissão de R$ 1,06 bilhão em debêntures conversíveis destinada aos próprios acionistas.
Outra empresa que passa por mudanças é a Matrix Energia, que contratou uma consultoria especializada, reduziu sua estrutura administrativa e vem reorganizando suas operações. O grupo também esteve envolvido em negociações de ativos que posteriormente foram devolvidos após problemas relacionados às garantias.
Apesar dos sinais de pressão, representantes do setor avaliam que o cenário não necessariamente representa uma crise generalizada. Para parte dos agentes, o mercado está passando por um processo natural de correção após um período de crescimento muito acelerado, no qual a oferta de novas usinas avançou em ritmo superior à capacidade de absorção de determinados mercados regionais.
A diferença entre as áreas de concessão também é considerada um fator decisivo. Enquanto algumas regiões ainda apresentam demanda suficiente para absorver novos projetos, outras enfrentam uma competição muito maior pelos mesmos consumidores. Com isso, empreendimentos semelhantes podem apresentar resultados financeiros completamente diferentes dependendo de onde estão instalados.
O novo cenário também pode acelerar uma tendência que já vinha ganhando força: a concentração do mercado. Empresas com maior capacidade financeira podem aproveitar a fase de ajuste para adquirir ativos de grupos endividados, enquanto companhias menores podem optar pela venda de usinas ou pela redução de suas operações.
Nos próximos meses, o comportamento da demanda, a utilização dos créditos acumulados e as decisões regulatórias deverão ser determinantes para definir o futuro da geração distribuída. O que começou como uma corrida para instalar o máximo possível de capacidade solar agora pode dar lugar a uma disputa por eficiência, consumidores e capacidade de gerar receita de forma sustentável.

Foto: Pixabay/Ulleo
Redação – Thiago Salles