Retaliação em escala: as armas econômicas e energéticas do Canadá para peitar as tarifas de Trump.

Internacional

Em meio à escalada de tensão que paralisou as negociações bilaterais de livre comércio, a pergunta que ecoa no cenário geopolítico global é até onde o Canadá consegue resistir e retaliar a maior economia do mundo. Apesar de os Estados Unidos absorberem a esmagadora maioria das exportações canadenses, Ottawa dispõe de um leque de armas econômicas, minerais e energéticas de alto impacto capazes de gerar severas turbulências no mercado interno norte-americano.

O trunfo mais devastador sob análise de Mark Carney e dos governadores provinciais reside no setor de energia e insumos essenciais. O Canadá é o principal fornecedor de gás natural e eletricidade para os EUA, além de responder por cerca de 60% do petróleo bruto importado pelo país. A aplicação de uma sobretaxa ou restrição no envio de energia, como ventilado pelo primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, afetaria imediatamente milhões de residências e indústrias em estados estratégicos como Michigan, Minnesota e Nova York. Ademais, o Canadá domina as reservas mundiais de potássio — insumo vital para o agronegócio americano —, além de minerais críticos como lítio, níquel e grafite.

No plano das decisões de consumo, o poder retaliatório canadense já provou sua eficácia na prática. O boicote provincial a bebidas alcoólicas norte-americanas fez desabar em mais de 70% as exportações de vinhos e destilados dos EUA para o país vizinho. Da mesma forma, o cancelamento em massa de viagens de turistas canadenses a território americano gerou um rombo bilionário na economia de serviços e turismo dos EUA, evidenciando que a população canadense apoia amplamente a postura firme de seu governo contra as exigências de Washington.

Por fim, o embate se desenha em um momento político extremamente delicado para a Casa Branca. Sendo o Canadá o principal destino comercial de 26 estados americanos, a alta nos preços de insumos como aço, madeira, veículos e alimentos recai diretamente sobre o bolso do consumidor norte-americano. Em estados industriais e agrícolas com eleições acirradas para o Congresso, a perda de empregos e a retaliação focada em regiões republicanas representam uma ameaça direta à estabilidade política de Trump, provando que o vizinho do norte tem margem e cacife para sustentar a disputa.

Foto: Getty Images / Reuters

Redação – Thiago Salles

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