O Paraguai consolidou de vez uma reengenharia em sua imagem institucional e econômica perante o mercado sul-americano. O país vizinho deixou para trás o antigo estigma de ser apenas um entreposto de compras em Ciudad del Este e transformou-se no principal duto de atração de investimentos e moradores do continente. Um contingente recorde e heterogêneo de empresários, estudantes de medicina, investidores e famílias inteiras está cruzando a fronteira de forma definitiva. O fenômeno ganhou tração acelerada nas planilhas de monitoramento: o número de brasileiros que iniciaram o processo de migração oficial para o Paraguai saltou de pouco mais de 10 mil em 2020 para impressionantes 23.526 em 2025, configurando uma curva de aceleração sem precedentes.
O grande motor dessa evasão em massa é o abismo de competitividade fiscal entre as duas nações. Enquanto a carga tributária brasileira sufoca o setor produtivo ao girar em torno de 33% do Produto Interno Bruto (PIB), o Paraguai opera com um teto que varia entre modestos 10% e 14%. O coração desse ecossistema atrativo é o célebre sistema conhecido como “10-10-10”, que fixa em aproximadamente 10% o Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF), o Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) e o IVA (equivalente ao ICMS sobre o consumo). “Para um empresário brasileiro acostumado a uma das estruturas tributárias mais complexas do mundo, esse número fala por si só”, explica Maressa Campos, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela B7 Business School. Além do alívio nos impostos, os custos fixos com energia elétrica, aluguel e alimentação são drasticamente menores, permitindo um padrão de consumo muito superior ao das grandes capitais brasileiras.
A engenharia de atração paraguaia inclui ainda gatilhos agressivos de incentivo industrial, como a Lei de Maquila, voltada para indústrias estrangeiras focadas em exportação com impostos quase zerados. Se por um lado o governo paraguaio comemora o reaquecimento do seu mercado imobiliário e a explosão do consumo interno gerada pelos novos residentes, por outro, o movimento acende um sinal de alerta máximo no Ministério da Fazenda do Brasil, que enfrenta perdas imediatas de arrecadação de grandes fortunas e de capacidade produtiva. Especialistas alertam, contudo, que a planilha de custos não deve ser o único fator na balança. O Paraguai impõe desafios severos no dia a dia: o país não possui uma rede de saúde universal nos moldes do SUS brasileiro, tem um sistema judiciário menos estruturado e sofre com a baixa digitalização dos serviços públicos. Ainda assim, o êxodo dita uma nova mentalidade geopolítica, provando que o empresariado nacional passou a enxergar a América do Sul como um tabuleiro integrado de sobrevivência financeira.
Foto: Reprodução / Internet
Redação – Thiago Salles