O presidente da China, Xi Jinping, desembarca nos Estados Unidos nesta semana para uma visita de Estado que pode ajudar a definir os próximos passos da relação entre as duas maiores economias do mundo.
O Ministério das Relações Exteriores da China confirmou que Xi permanecerá no país entre 23 e 25 de setembro, a convite do presidente Donald Trump. Os dois terão uma reunião em Washington para discutir questões bilaterais e temas internacionais considerados estratégicos.
O encontro acontece apenas quatro meses depois da visita de Trump à China e deve ter como principal objetivo preservar a estabilidade alcançada após a trégua comercial firmada entre os dois governos em 2025. Segundo a Reuters, autoridades americanas vêm reduzindo as expectativas de grandes avanços imediatos.
China chega fortalecida pelo comércio exterior
Desde o último encontro entre Xi e Trump, as exportações chinesas continuaram avançando, apesar das medidas adotadas por Washington para reduzir a dependência de produtos fabricados na China.
A Reuters relata que o superávit comercial global chinês caminha para superar US$ 1 trilhão pelo segundo ano consecutivo. Mais da metade das cerca de 6.500 categorias de produtos chineses vendidas aos Estados Unidos registrou crescimento em relação a 2025, apesar das restrições impostas a determinados segmentos.
Esse desempenho contrasta com problemas internos enfrentados pela economia chinesa, como a demanda doméstica mais fraca e as dificuldades prolongadas do setor imobiliário.
Ainda assim, a força das exportações dá a Pequim margem maior para negociar sem a mesma urgência observada em fases anteriores da disputa comercial.
Trump e Xi devem discutir extensão da trégua comercial
A possibilidade de prolongar o acordo comercial firmado no ano passado deverá ocupar espaço central na reunião.
Segundo analistas ouvidos pela Reuters, Xi pode priorizar a manutenção de um ambiente previsível, usando o tempo para fortalecer a economia chinesa, enquanto Washington busca concessões em áreas comerciais e tecnológicas.
No domingo, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, e o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, participaram de conversas preparatórias. Comércio, inteligência artificial e outros temas estratégicos estavam entre os assuntos discutidos.
Empresários chineses também podem acompanhar Xi. Executivos de companhias como BYD, CATL e Xiaomi estavam entre os nomes avaliados para integrar a delegação, embora a lista definitiva ainda estivesse em discussão.
Taiwan pode ser o ponto mais sensível
Além das negociações econômicas, Taiwan continua sendo um dos temas mais delicados da relação entre Washington e Pequim.
A China considera a ilha parte de seu território e não descarta o uso da força para alcançar a reunificação. Taiwan mantém governo próprio, instituições democráticas e recebe apoio militar dos Estados Unidos.
Segundo a Reuters, Xi levantou repetidamente a questão durante os encontros realizados com Trump em maio. Entre os assuntos discutidos estiveram vendas de armas americanas e o grau de compromisso de Washington com a defesa da ilha.
Autoridades e analistas em Taiwan e no Japão acompanham a reunião com atenção diante da possibilidade de qualquer mudança na postura americana.
Até agora, porém, não existe anúncio oficial de que Washington pretenda alterar sua política em relação a Taiwan como parte de um acordo comercial com Pequim.
Inteligência artificial também entra na negociação
Trump já afirmou publicamente que pretende discutir inteligência artificial com Xi durante a visita de setembro.
A competição tecnológica entre China e Estados Unidos tornou-se um dos principais componentes da rivalidade bilateral, envolvendo chips avançados, centros de dados, modelos de IA e restrições à exportação de tecnologias consideradas estratégicas.
As conversas preparatórias indicam que os dois governos podem tentar estabelecer limites ou regras em determinados segmentos da tecnologia, embora não exista, até agora, um acordo anunciado.
Irã adiciona mais pressão à agenda
Outro tema que pode aparecer na reunião é a guerra envolvendo o Irã.
Washington considera que Pequim possui influência econômica relevante sobre Teerã e gostaria que o governo chinês usasse essa relação para aumentar a pressão pelo fim do conflito.
A China, porém, não demonstrou até agora disposição clara para adotar a estratégia desejada pelos Estados Unidos. Segundo a Reuters, Pequim mantém relações comerciais expressivas com o Irã e nega ter conhecimento de esquemas destinados a contornar sanções americanas.
A questão amplia a complexidade do encontro, já que envolve não apenas comércio bilateral, mas também segurança internacional e política energética.
Expectativa é de estabilidade, não de grande acordo
Apesar da importância política da visita, analistas consultados pela Reuters avaliam que o encontro pode resultar mais em manutenção da estabilidade do que em uma ampla reformulação das relações entre os dois países.
O próprio governo chinês afirmou que pretende ampliar o diálogo, buscar cooperação onde houver interesses comuns e administrar as divergências entre as duas potências.
Com isso, a reunião de Washington deverá ser acompanhada de perto pelos mercados e por governos de todo o mundo, especialmente porque qualquer mudança no relacionamento entre Estados Unidos e China tem potencial para afetar comércio global, tecnologia, cadeias produtivas e segurança internacional.
Foto: Jonathan Ernst/Reuters –
Redação – Thiago Salles