O avanço do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, aprovado provisoriamente pelos países europeus, pode provocar mudanças significativas no cardápio — e na adega — dos brasileiros nos próximos anos. Entre os principais impactos estão a possível queda no preço dos vinhos europeus e a ampliação da oferta de chocolates premium no país.
Atualmente, vinhos importados da Europa chegam ao Brasil com uma tarifa de 27%. Caso o acordo entre em vigor, esse imposto será reduzido gradualmente até zerar entre 8 e 12 anos, dependendo do tipo de produto, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A expectativa é que essa redução estimule importadores a trazer rótulos mais variados e acessíveis.
Para o professor de MBAs da Fundação Getulio Vargas, Roberto Kanter, a queda das tarifas tende a mudar a lógica do mercado. Hoje, os impostos elevados fazem com que vinhos baratos e caros cheguem ao consumidor final em faixas de preço semelhantes, desestimulando a importação de rótulos europeus mais simples. Com menos barreiras, a tendência é de maior diversidade e concorrência.
A Europa concentra alguns dos maiores produtores de vinho do mundo, como Itália, França e Espanha, o que permite encontrar rótulos de boa qualidade a preços muito baixos no continente. Com o acordo, parte dessa vantagem pode chegar ao consumidor brasileiro — ainda que de forma lenta e progressiva.
No caso dos chocolates, o impacto será diferente. As tarifas atuais, de 20%, também serão reduzidas ao longo de 10 a 15 anos. Isso deve facilitar a entrada e a expansão de marcas europeias premium no Brasil, ampliando a presença em shoppings e grandes centros urbanos. No entanto, especialistas alertam: isso não significa chocolate barato.
Segundo Kanter, o maior benefício será o acesso, não o preço. Marcas de alto padrão mantêm valores elevados por estratégia de mercado, independentemente de impostos. Assim, o acordo tende a favorecer importadores e consumidores de maior poder aquisitivo, enquanto chocolates populares continuarão sendo dominados pela produção nacional.
O economista Marcos Troyjo, que participou das negociações do acordo, avalia que a abertura gradual dará tempo para adaptação da indústria brasileira e pode gerar um efeito positivo em cadeia, com expansão do consumo, da oferta de produtos e até da geração de empregos em setores ligados à gastronomia e ao varejo especializado.
No fim das contas, o acordo Mercosul–União Europeia promete transformar o mercado, mas de forma desigual. Para parte dos brasileiros, pode significar vinho melhor e mais opções nas prateleiras. Para outros, apenas a confirmação de que luxo importado continua sendo luxo — mesmo com menos imposto.
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Redação Brasil News