Transição energética na América Latina precisa enfrentar desigualdades sociais e de gênero, defendem especialistas.

Economia

A discussão sobre transição energética na América Latina precisa ir além da simples troca de fontes poluentes por energias renováveis. Para especialistas da área, a mudança só poderá ser considerada justa quando enfrentar, de maneira direta, as desigualdades sociais, a pobreza energética e os impactos desproporcionais sofridos por mulheres e populações mais vulneráveis.

Apesar de dados oficiais indicarem que a maior parte da população latino-americana possui acesso à eletricidade, a realidade em muitas comunidades é bem diferente. Milhões de pessoas, especialmente em áreas rurais e territórios indígenas, ainda vivem sem fornecimento regular de energia. Mesmo entre aqueles conectados à rede, são comuns falhas no serviço, tarifas elevadas e dependência de fontes poluentes.

Outro problema grave é o uso da biomassa para cozinhar, prática ainda presente em dezenas de milhões de lares da região. O uso de lenha e carvão provoca doenças respiratórias, afeta a saúde de mulheres e crianças e amplia a desigualdade social. Em diversos países, metade da população ainda depende desse tipo de energia no dia a dia.

Estudos apontam que as mulheres são as mais prejudicadas pela pobreza energética. Em zonas rurais, elas acumulam horas coletando lenha, sofrem com a poluição dentro de casa e ficam mais expostas à violência em locais sem iluminação adequada. A falta de energia também reduz oportunidades de renda, estudo e participação política.

Apesar do crescimento dos investimentos em fontes renováveis, como a energia eólica e solar, especialistas destacam que nem sempre esses projetos beneficiam as comunidades locais. Em vários países, as grandes obras são voltadas à exportação de energia ou à demanda de mercados internacionais, sem gerar empregos de qualidade ou desenvolvimento regional sustentável.

A exploração de minérios estratégicos, como o lítio, segue a mesma lógica. Países como Argentina, Chile e Bolívia abastecem cadeias produtivas globais sem, muitas vezes, garantir retorno social proporcional às suas populações. A ausência de uma política industrial integrada reforça a dependência econômica da região.

Diante desse cenário, pesquisadores defendem que a transição energética precisa caminhar junto com políticas públicas de inclusão social, fortalecimento da indústria local, geração de empregos qualificados e participação das comunidades nas decisões sobre grandes projetos.

Além disso, é necessária uma revisão das regras do setor energético para que a energia seja tratada como um direito humano essencial. Custos elevados e serviços precários continuam sendo barreiras para milhões de famílias.

A proposta central defendida pelos especialistas é que a transição energética seja pensada como um processo político e social, e não apenas técnico. Sem justiça social, equidade de gênero e soberania energética, a mudança para um modelo sustentável corre o risco de aprofundar desigualdades já existentes na América Latina.


Foto: Arquivo / Divulgação

Redação Brasil News

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