Quando o Irã foi sacudido por protestos nacionais em 2022, boa parte do mundo árabe acompanhou os acontecimentos com expectativa e até entusiasmo. A República Islâmica havia passado décadas construindo uma rede de influência regional que afetava diretamente países vizinhos, e muitos viam na possível queda do regime uma oportunidade histórica de se libertar da pressão iraniana.
Naquele momento, canais de comunicação pan-árabes, frequentemente financiados por monarquias do Golfo, deram ampla visibilidade às manifestações. Nos bastidores, diplomatas comentavam o cenário com otimismo, ainda que mantivessem discrição pública. A tensão chegou ao ponto de o então comandante da Guarda Revolucionária, Hossein Salami, ameaçar diretamente países que, segundo ele, estariam estimulando a agitação interna por meio da mídia.
O cenário atual, no entanto, é bem diferente. Embora os protestos de agora representem uma ameaça ainda maior ao regime iraniano, a reação do mundo árabe tem sido marcada por cautela e silêncio. O noticiário regional passou a priorizar outros temas, e autoridades evitam declarações mais enfáticas. Dois fatores explicam essa mudança: o enfraquecimento do Irã e o medo crescente de que um colapso total gere instabilidade incontrolável no Golfo.
As guerras envolvendo Israel após o ataque de 7 de outubro de 2023 desmantelaram grande parte da rede de aliados iranianos. O Hezbollah, antes considerado um pilar da influência de Teerã no Líbano, sofreu perdas severas e segue sob ataques quase diários. Na Síria, o regime aliado de Bashar al-Assad deixou de existir, encerrando mais um eixo estratégico iraniano.
O próprio Irã também saiu ferido. Em junho de 2025, o país enfrentou quase duas semanas de bombardeios conduzidos por forças israelenses e americanas, episódio que marcou um divisor de águas na percepção regional sobre o poder iraniano. Salami, antes símbolo da retórica agressiva do regime, foi morto durante esses ataques, encerrando um ciclo de ameaças abertas.
Com isso, o destino da República Islâmica deixou de parecer uma urgência regional. Em países como a Síria e o Líbano, há até certo sentimento de satisfação com o enfraquecimento iraniano, mas sem o entusiasmo de antes. Quando o chanceler Abbas Araghchi visitou Beirute em 2024, a recepção foi marcada por críticas. Já sua visita mais recente, em janeiro, gerou mais ironia do que indignação.
Hoje, o mundo árabe observa o Irã com distância. A queda do regime pode até agradar a alguns, mas o temor de que o vazio de poder provoque guerras, milícias fora de controle e novos conflitos regionais pesa mais do que qualquer desejo de revanche. O silêncio, agora, é uma estratégia de sobrevivência.

Foto: Mahsa / Middle East Images via AFP
Redação Brasil News