
Oftalmologista e cirurgiã explica como a blefaroplastia estruturada une estética, saúde e escuta ativa em cada paciente
O olhar carrega expressão, identidade e também saúde. Pálpebras pesadas, bolsas de gordura ou flacidez ao redor dos olhos podem ser incômodos estéticos e também esconder questões funcionais, como dores de cabeça pelo esforço da testa ou perda de campo visual.
Para Stela Roque, oftalmologista especializada em cirurgia plástica ocular e vias lacrimais, compreender a fronteira entre forma e função é parte essencial de seu trabalho. Nesse caminho, humanização significa enxergar a história por trás de cada olhar e construir, junto ao paciente, decisões que façam sentido para sua vida e não apenas para a técnica. Com mais de 15 anos de experiência, ela explica como a blefaroplastia estruturada pode trazer leveza ao olhar sem abrir mão da naturalidade, da segurança e do cuidado individualizado.
Raízes no interior e apoio da família
A história de Stela começa em Arcos, pequena cidade de Minas Gerais. Desde cedo, ela revelou ter vocação para a medicina. O apoio familiar foi determinante. “Meus pais não tinham experiência com universidade, mas disseram: me fala o que precisa porque estamos do seu lado”, recorda. Os quatro irmãos também seguiram para a área da saúde: um na medicina e dois na odontologia. “Meus pais venderam terra para que eu pudesse estudar. Essa confiança me acompanha até hoje”, acrescenta.
A graduação em medicina aconteceu na Universidade de Teresópolis (Unifeso), seguida pela residência em oftalmologia no Instituto Benjamin Constant (IBC), no Rio de Janeiro. Em Belo Horizonte (MG), Stela se especializou em cirurgia plástica ocular no Centro Oftalmológico de Minas Gerais (COMG-MG). Tornou-se a primeira mulher oftalmologista de sua cidade natal — um marco que considera simbólico. “Foi ocupar um espaço, abrir caminhos e mostrar que era possível”, diz.
No Rio de Janeiro (RJ), a carreira ganhou consistência e reconhecimento. Em 2020, recebeu o convite de um antigo professor para se tornar sócia do COE Rio, clínica fundada em 1992 e referência em Botafogo, que recentemente expandiu para a Barra da Tijuca. “Saí do interior sem rede de apoio. Portas se abriram pelo trabalho, pela ética e pela dedicação. É gratificante ver essa trajetória consolidada”, afirma.

Blefaroplastia estruturada e técnicas associadas
No consultório, muitos pacientes chegam em busca de estética, mas descobrem que o incômodo vai além da aparência. Ptose palpebral, queda do supercílio, entrópio, ectrópio e até tumores de pálpebra podem estar na origem do problema. “A plástica ocular não se resume à aparência. É preciso avaliar músculos, ligamentos, suporte ósseo, lubrificação e proteção ocular”, explica.
É nesse contexto que a oftalmologista desenvolveu a prática da chamada blefaroplastia estruturada. O procedimento considera pele, músculo, gordura e ossos antes de definir o que deve ser preservado, removido ou reposicionado. Em alguns casos, associa-se ao lifting de supercílio para aliviar o peso lateral. Quando há flacidez acentuada, a solução pode incluir cantopexia ou cantoplastia. “A pálpebra não é apenas um detalhe estético. Ela protege o olho, fecha e lubrifica. Qualquer intervenção precisa respeitar essa função”, pontua.
A tecnologia tem papel importante, mas sem substituir a sensibilidade humana. O laser de CO₂ é usado tanto como ferramenta de corte — com mais precisão e menor sangramento — quanto para tratar a pele, estimulando colágeno e retração. “A cirurgia corrige o excesso de pele e gordura, mas não muda a textura. O laser complementa, deixando o resultado mais natural”, detalha.
No pré-operatório, são realizados exames clínicos e marcações minuciosas para proteger estruturas nobres. A cirurgia é feita com anestesia local e sedação leve, podendo durar de uma a duas horas, e conta com protocolos rígidos de assepsia em centro cirúrgico.
O pós-operatório, por sua vez, envolve compressas frias, lubrificação, drenagem linfática suave, taping (fitas elásticas) e laser terapêutico. “No quinto dia, a melhora já é visível. Em torno do sétimo, retiro os pontos e, após uma semana, a maioria retorna ao trabalho, ainda com discreto edema. Cada organismo tem seu tempo, e a comparação é o que mais atrapalha a recuperação”, orienta.
Naturalidade, assimetria e escuta ativa
A busca por naturalidade é central na prática de Stela. “Naturalidade não é slogan, é técnica. É respeitar limites e saber quando não operar”, resume. E a simetria, frequentemente idealizada pelos pacientes, ganha esclarecimento. “Ninguém é perfeitamente simétrico. Até o inchaço do pós-operatório varia de um lado para o outro. O objetivo é equilíbrio e leveza, não a igualdade absoluta.”
Casos reais ilustram essa abordagem. Um paciente inglês a procurou às vésperas do casamento do filho, pedindo que ninguém percebesse a cirurgia. “Ele voltou com a foto e disse: resultado alcançado, ninguém notou”, relembra. Já uma paciente de 59 anos, insatisfeita com ruguinhas ao sorrir, ouviu um “não”. “Expliquei que retirar mais pele poderia causar retração. Fizemos lifting de supercílio e tratamentos de pele, mas não a cirurgia que traria risco. O não também acolhe”, afirma.
Em outro momento, um jovem de 25 anos chegou com ptose leve, mas expectativas irreais. Foram oito consultas até que ele buscasse também apoio psicológico. Só então a cirurgia foi realizada. “A gente precisa identificar quando a expectativa não está alinhada. A cirurgia ajuda, mas não resolve sozinha a vida de ninguém”, reflete.
Entre os homens, o receio de traços femininos é frequente. “O olhar masculino pede linhas mais retas. A técnica precisa respeitar essa característica para que o resultado seja natural”, explica.
Para Stela, humanização não se limita a tratar bem ou ser cordial. Envolve escutar com profundidade, orientar com honestidade, acompanhar de perto cada etapa e, sobretudo, ter coragem de dizer não quando a intervenção não traz segurança ou benefício. Esse vínculo de confiança é parte do tratamento tanto quanto a técnica.
Segurança, prevenção e futuro da plástica ocular
A preocupação com segurança vai além do ato cirúrgico. Stela alerta sobre modismos que ameaçam a visão. “A ceratopigmentação tatua a córnea. Pode impedir avaliação de glaucoma, atrapalhar cirurgia de catarata e até comprometer a visão. É gravíssimo”, ressalta. Extensões de cílios sem higiene adequada também podem causar blefarite e alergias.
No cotidiano, a médica recomenda cuidados simples: uso de protetor solar na região dos olhos, higienização diária das pálpebras, evitar maquiagem na linha d’água, descartar produtos vencidos e nunca usar colírios sem prescrição. “Cuidar dos olhos não é evento, é rotina”, resume.
Quanto ao futuro da especialidade, Stela mantém cautela. A inteligência artificial pode auxiliar em simulações e comunicação, mas as estruturas delicadas da plástica ocular ainda dependem da sensibilidade humana. Para ela, o maior avanço atual é o uso do laser de CO², que já trouxe ganhos reais de precisão e recuperação.
Entre tecnologia e escuta, o fio condutor é sempre o vínculo com cada paciente. “A pálpebra não é apenas estética. É saúde, é autoestima, é expressão. Estando em boas mãos, o paciente fica bem e feliz”, conclui.
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