Guerra de liminares e denúncia de PCC: Terceirizada e ONG da produtora de ‘Dark Horse’ disputam R$ 4,5 mi na Justiça de SP

Brasil Negócios

Uma complexa batalha judicial envolvendo um convênio de R$ 108 milhões assinado com a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) colocou em rota de colisão a empresa de tecnologia Ultra IP e o Instituto Conhecer Brasil (ICB) — ONG presidida pela empresária Karina Ferreira da Gama, que também comanda a produtora Go Up, responsável pelo polêmico filme “Dark Horse”.

A Ultra IP acionou a 8ª Vara Cível da Capital exigindo o pagamento de R$ 4,5 milhões. A empresa alega ter sido a única operadora real a implementar 3.200 pontos de Wi-Fi públicos em regiões periféricas de São Paulo. A petição inicial acusa o ICB de inflar os valores unitários das instalações de forma artificial e de usar uma suposta empresa de fachada para desviar verbas públicas.

Elos criminosos e empresas de monitoramento gêmeas

O ponto mais agudo da denúncia oferecida pela terceirizada aponta que a empresa Favela Conectada Serviços e Tecnologia Ltda. recebeu o repasse de R$ 12 milhões da ONG para conectar 2 mil pontos de internet sem ter executado nenhuma etapa física do serviço.

A Favela Conectada (atual Urban Connect) pertencia originalmente a Alex Leandro Bispo dos Santos, vulgo “Escorpião do PCC”, atualmente preso sob acusação de feminicídio. Antes de ser detido, Alex transferiu o controle formal da empresa para Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes, que reside em seu mesmo endereço no Butantã.

A auditoria e o monitoramento dessas conexões na periferia estavam sob o encargo de outras duas empresas contratadas pelo ICB: a Complexsys e a Fastfuture.

  • A Complexsys pertence ao empresário André Feldman — apontado pela acusação como diretor oculto e mentor dos negócios da ONG de Karina Gama.
  • A Fastfuture é controlada por sua esposa, Débora Feldman, que atua profissionalmente como terapeuta holística nas redes sociais.

O caso ganhou tração política após a descoberta de que o gerente sênior afastado da SPTuris, Rodrigo Raveli Bolzan — que recebia R$ 52 mil mensais —, foi sócio de André Feldman na Complexsys, gerando suspeitas de favorecimento em uma rede de empresas satélites que drenavam os cofres municipais.

Defesa alega chantagem e retaliação com corte de Wi-Fi

Em contra-ataque levado à Polícia Civil, Karina Ferreira da Gama registrou um inquérito por tentativa de extorsão contra William Silva Ferreira, proprietário da Ultra IP. Segundo a defesa da ONG, conduzida pelo escritório Hasson Sayeg, Novaes e Venturole Advogados (HSLAW), o empresário exigiu R$ 2,5 milhões em espécie para não expor relatórios internos do convênio à imprensa escrita e televisiva.

O ICB sustenta que o contrato de R$ 30,7 milhões que mantinha com a Ultra IP foi rescindido unilateralmente por sucessivas quebras de protocolo técnico, imperícia administrativa e a entrega de relatórios adulterados. A ONG acusa a empresa de desligar deliberadamente 800 links de internet ativos em comunidades carentes no dia 26 de setembro de 2025, transformando a população vulnerável em refém da disputa corporativa.

Triangulação com emendas de deputados federais

Paralelamente ao escândalo do Wi-Fi Livre, o nome de Karina Gama está sob o escrutínio de órgãos de controle devido a um suposto esquema de triangulação financeira. Há suspeitas de que deputados e ex-parlamentares do Partido Liberal (PL) — incluindo nomes como Carla Zambelli, Alexandre Ramagem, Bia Kicis e Marcos Pollon — tenham carimbado emendas orçamentárias parlamentares para entidades geridas por Karina com o objetivo velado de financiar a infraestrutura da produção cinematográfica “Dark Horse”.

Em posicionamento oficial, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) blindou a prefeitura, afirmando que o município possui vínculo exclusivo com o ICB e que a gestão de subcontratados cabe estritamente à ONG. A pasta ressaltou que exigiu a devolução preventiva de R$ 2 milhões em 2025 devido a incongruências nas prestações de contas, e que as contas da parceria seguem auditadas de perto pela Controladoria Geral do Município (CGM), Ministério Público e Tribunal de Contas. André Feldman negou qualquer atuação de má-fé ou participação diretiva na administração do ICB.

Foto: Redação – Thiago Salles

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