O café brasileiro vive um momento crítico no mercado norte-americano. Segundo exportadores, a continuidade da tarifa de 40% aplicada pelos Estados Unidos sobre parte dos produtos do Brasil está acelerando a substituição do café nacional nos blends consumidos pelo público americano. A mudança já começou a ser percebida nas torrefadoras, que têm dado preferência a fornecedores isentos da cobrança.

Para o Cecafé, se a tarifa de 40% for mantida, exportação para os EUA será apenas pontual. Foto: Adobe Stock
Marcos Matos, diretor geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), afirmou que essa migração pode resultar em uma perda definitiva de mercado. “Os Estados Unidos mantiveram o consumo, mas não mantiveram a compra do Brasil. A mudança de blend já está em andamento. Sem competitividade, nossa presença tende a virar algo pontual”, disse.
O movimento é impulsionado pela recente isenção tarifária concedida pelo governo norte-americano a vários concorrentes diretos do Brasil — entre eles Colômbia, Honduras, Vietnã, Tunísia, Costa Rica e países africanos. Com tarifas zeradas, esses exportadores passaram a ocupar rapidamente o espaço antes dominado pelo café brasileiro.
Para Matos, a situação é especialmente preocupante porque não envolve apenas preço. O setor teme que as relações comerciais de longo prazo, fundamentais para o mercado de café, sejam agora firmadas com outros fornecedores. “Quando um importador começa a comprar de outra origem, cria-se um novo vínculo. Além disso, o consumidor americano se acostuma a novas características sensoriais”, explica.
O analista Guilherme Morya, do Rabobank, destaca que os próximos meses serão decisivos para entender o quanto os Estados Unidos continuarão precisando complementar seus estoques com café brasileiro, especialmente diante da baixa disponibilidade global. Porém, os dados mais recentes mostram queda consistente: em agosto, as exportações do Brasil para os EUA caíram 46%; em setembro, 52,8%; e em outubro, 54,4%.
A tendência, segundo Matos, é de aprofundamento dessas perdas caso não haja avanço nas negociações diplomáticas. Ele acrescenta que 2026 pode ser ainda mais desafiador. Uma safra cheia no Brasil — segundo apontam os modelos climáticos — deve aumentar a oferta e pressionar ainda mais os preços internacionais, potencializando os efeitos negativos das tarifas.
A volatilidade global também preocupa o setor. Morya ressalta que fatores como conflitos geopolíticos, mudanças regulatórias internacionais e estoques historicamente baixos podem gerar saltos de preço e incertezas ao longo do ano. “Até termos clareza sobre o tamanho real da próxima safra brasileira, o mercado seguirá sensível”, afirma.
Mesmo diante do cenário delicado, a Colômbia — um dos principais concorrentes do Brasil no segmento de arábica — continua ampliando suas compras de café brasileiro. Especialistas descartam triangulação para os Estados Unidos e afirmam que o movimento é tradicional: a Colômbia importa principalmente conilon e café solúvel do Brasil, enquanto direciona sua produção nacional para exportações premium.
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Redação Brasil News