Uma intrincada teia de conexões atmosféricas a milhares de quilômetros de distância foi a responsável pelo maior aumento temporário de massa de gelo já registrado pelos satélites GRACE no continente antártico. Segundo dados de uma nova pesquisa divulgada pela Nature, águas excepcionalmente quentes nas regiões tropicais do Pacífico e do Índico desencadearam as chamadas ondas de Rossby — grandes perturbações na circulação do ar que avançaram em direção ao polo sul.
Esse rearranjo gerou sistemas de baixa pressão na costa leste da Antártica, funcionando como um verdadeiro corredor para a passagem de “rios atmosféricos” — extensas faixas de ar carregadas de vapor d’água. Ao atingirem as regiões de Queen Mary Land e Wilkes Land, na Antártica Oriental, as correntes de umidade se transformaram em tempestades de neve de proporções inéditas, acumulando centenas de bilhões de toneladas de precipitação sólida em apenas dois anos.
Ao cruzar medições de gravidade, núcleos de gelo e simulações de circulação, os pesquisadores concluíram que a massa de ar quente vinda dos trópicos foi o fator dominante no evento, sendo que o aquecimento direto provocado por emissões humanas respondeu por apenas 9% da anomalia observada. O levantamento indica ainda que episódios semelhantes de aquecimento oceânico tropical costumam ocorrer aproximadamente uma vez a cada década, mostrando que o comportamento dos polos é profundamente afetado por dinâmicas climáticas distantes.
Apesar da magnitude do acréscimo de gelo, especialistas enfatizam que o evento não estancou a crise climática na região. Nas últimas duas décadas, a Antártica perdeu uma média anual de 140,5 bilhões de toneladas de gelo, com derretimento acentuado na porção Ocidental decorrente do aquecimento das águas oceânicas profundas. O ganho na Antártica Oriental atua apenas como uma oscilação temporária na curva histórica de retração das geleiras polares.
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Redação – Thiago Salles