A iminente entrada em vigor da nova política alfandegária dos Estados Unidos acendeu o sinal de alerta no setor produtivo nacional, forçando uma rápida articulação entre a iniciativa privada e o governo federal. A partir do dia 22 de julho, uma sobretaxa de 25% imposta pelo presidente Donald Trump passará a incidir sobre uma extensa lista de mercadorias nacionais, impactando diretamente 18% de tudo o que o Brasil exporta para o mercado norte-americano. Como resposta imediata, empresários e exportadores iniciaram uma corrida para diversificar seus compradores, elegendo os Emirados Árabes Unidos, o Canadá e a Bélgica como as principais engrenagens para mitigar os prejuízos.
O reposicionamento estratégico ganhou musculatura com um mapeamento detalhado conduzido pela Apex Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos). O estudo identificou quais nações possuem demanda e acordos favoráveis para absorver o fluxo comercial que deve deixar de ir para os EUA devido à perda de competitividade gerada pelo imposto. Setores vitais, que englobam desde commodities até produtos manufaturados de alto valor agregado, já possuem rotas de escoamento alternativas desenhadas pela agência:
- Máquinas, veículos e mecânica: Austrália, Canadá, México, Alemanha, China, Chile, Colômbia e Arábia Saudita aparecem como fortes parceiros de absorção.
- Bens de consumo e mobiliário (Calçados e Móveis): Emirados Árabes, Canadá, Chile, Colômbia, México, França e Reino Unido despontam como mercados prioritários.
- Açúcar e Granito: Além dos Emirados Árabes e do Canadá, mercados robustos como a China, Indonésia e Rússia possuem capacidade para receber o excedente.
- Commodities industriais (Madeira, Borracha, Papel e Etanol): Bélgica, Reino Unido, Japão, Argentina, Uruguai e Coreia do Sul lideram as oportunidades de escoamento.
Diplomacia comercial e a corrida por acordos
A retaliação de Washington foi baseada na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana, um dispositivo jurídico que permite ao país punir práticas comerciais estrangeiras que considere desleais. Para blindar a economia, o Itamaraty e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) apostam na aceleração de tratados internacionais. Após a recente implementação do histórico acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, o bloco sul-americano agora concentra esforços para concluir as negociações com os canadenses ainda no decorrer de 2026, além de estreitar laços com o Vietnã, Índia e Indonésia.
De acordo com as regras estabelecidas pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), as cargas brasileiras que já tiverem sido embarcadas antes do dia 22 de julho estarão isentas do tarifaço, desde que o ingresso físico em território americano ocorra, impreterivelmente, até o dia 29 de julho.
Para analistas de comércio exterior, embora a transição de mercados exija adaptações logísticas e alfandegárias complexas no curto prazo, a crise pode acelerar uma descentralização saudável e necessária da pauta exportadora do Brasil, reduzindo a dependência histórica de superpotências isoladas.
Foto: Redação – Thiago Salles