O Retorno do Fenômeno: Termômetros do Pacífico em Linha de Alta
O fantasma dos desastres climáticos volta a rondar o continente sul-americano com força total. Leituras de satélites, radares meteorológicos e uma rede de boias marítimas de profundidade confirmaram o início da instalação de um novo episódio do fenômeno El Niño no Oceano Pacífico Equatorial. De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), existe uma probabilidade esmagadora de 90% de o fenômeno se consolidar nos próximos meses, injetando uma dose extra de energia e calor em uma atmosfera global que já opera sob os efeitos severos do aquecimento global.
A anomalia térmica, que se caracteriza pelo aquecimento das águas superficiais do Pacífico em pelo menos 0,5 °C acima da média histórica por um período prolongado, vem dando sinais claros de aceleração. Cientistas alertam que temperaturas subsuperficiais — aquelas que ficam logo abaixo da lâmina d’água — já registram marcas impressionantes de até 6 °C acima do normal, servindo como uma espécie de combustível para o sistema. Embora o termo “Super El Niño” seja evitado por especialistas, o consenso na comunidade científica, endossado por Tércio Ambrizzi, professor de ciências atmosféricas da USP, é de que o fenômeno deste ano flutuará em uma intensidade de moderada a forte.

O Impacto no Tabuleiro Nacional: Clima Dividido de Norte a Sul
A distribuição geográfica dos impactos no território brasileiro dependerá do ponto exato onde ocorrerá o pico do aquecimento oceânico, mas os modelos de previsão já desenham um cenário de forte polarização climática a partir do segundo semestre:
- Região Sul: A previsão do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden) indica que os primeiros reflexos devem surgir durante a primavera, traduzindo-se em uma avalanche de frentes frias e chuvas extremas volumosas. O cenário desperta gatilhos de ansiedade na população, que ainda tenta se recuperar psicologicamente e economicamente das trágicas inundações históricas de 2024.
- Norte e Nordeste: O padrão de circulação de ventos gerado pelo El Niño deve bloquear as precipitações nessas regiões, agravando de forma drástica a seca severa na Amazônia e no Semiárido durante o inverno e o início do verão. O ambiente excessivamente seco e de calor extremo criará condições de guerrilha ambiental, facilitando a propagação de queimadas descontroladas e ameaçando os ecossistemas.
Apesar do alerta climático, o agronegócio brasileiro projeta uma safra recorde de grãos estimada em 356 milhões de toneladas — um avanço de 1,2% em relação ao ciclo anterior. No entanto, o Congresso Nacional já abriu sessões de debate urgentes para avaliar como o estresse hídrico e o excesso de umidade localizado podem golpear a produtividade no campo e pressionar a inflação dos alimentos.

O Gargalo da Prevenção: Orçamentos Travados e Periferias Expostas
A maior preocupação de sociólogos, gestores de risco e movimentos sociais não reside apenas na força do vento ou no volume das nuvens, mas sim na gritante falta de reengenharia estrutural e de adaptação das cidades brasileiras. “Cada El Niño tem sua própria impressão digital. Ele nunca é igual ao outro”, adverte Ambrizzi, sinalizando que a vulnerabilidade urbana amplifica qualquer tempestade. Nas periferias das grandes metrópoles, como Porto Alegre, líderes comunitários denunciam o completo abandono do poder público em obras de resiliência.
“As periferias das cidades já sofrem com impactos acumulados por vários desastres. Não temos quase nada pronto para adaptar nossas comunidades a esse cenário”, desabafa Thaynah Gutierrez, secretária executiva da Rede por Adaptação Antirracista.
O descompasso entre o alerta da ciência e a execução política ganha contornos alarmantes em dados fiscais. O estado de Santa Catarina, por exemplo, embora tenha decretado estado de alerta climático válido até novembro, operou em marcha à ré nos investimentos práticos de prevenção. Dados do Sistema Integrado de Planejamento e Gestão Fiscal (Sigef-SC) revelam que, no ano passado (2025), o governo catarinense executou pífios 15,4% do orçamento aprovado para a Secretaria de Proteção e Defesa Civil. Pior: o investimento voltado especificamente para a construção, ampliação e reforma de barragens de contenção de cheias não passou de vergonhosos 0,66% do total empenhado.
Comunicação de Risco e Resiliência Permanente
Para Victor Marchezini, sociólogo do Cemaden, o Brasil precisa abandonar a cultura do gerenciamento de crises e migrar para uma agenda de resiliência permanente. O especialista aponta que a proliferação de previsões desencontradas e o alarmismo praticado por influenciadores e consultorias privadas nas redes sociais acabam gerando ruído e desinformação, deixando o cidadão comum confuso sobre quais protocolos de emergência seguir.
O caminho para mitigar perdas humanas e econômicas passa por um planejamento financeiro e administrativo de longo prazo. A realização de licitações antecipadas, mapeamento rigoroso e situado das áreas de risco periféricas e o cumprimento rígido dos orçamentos de defesa civil são apontados como os únicos escudos eficientes. Em um ano marcado por eleições municipais, a sociedade civil começa a se mobilizar de forma responsável para cobrar que a pauta da adaptação climática deixe de ser um discurso de palanque e passe a figurar como prioridade máxima de estado.
Foto: Renan Mattos / Reuters
Redação – Thiago Salles