Em meio à guerra que já se arrasta há quase quatro anos, o governo dos Estados Unidos estaria trabalhando em uma nova proposta de paz para o conflito entre Rússia e Ucrânia. De acordo com reportagens do portal Axios e do Financial Times, o plano — discutido discretamente por representantes americanos e russos — inclui algumas das principais exigências de Moscou, como a cessão de áreas no leste ucraniano e o reconhecimento formal da Crimeia como território russo.

Unidade ucraniana dispara foguetes contra linhas russas nos arredores de Pokrovsk, no leste da Ucrânia — Foto: Tyler Hicks/The New York Times
Segundo o Axios, o esboço da proposta contém 28 pontos e sugere que a Rússia assumiria controle total de Donetsk e Luhansk, regiões do Donbass, incluindo zonas que ainda estão sob domínio ucraniano. Em outras áreas contestadas, como Kherson e Zaporíjia, a divisão seguiria as linhas de combate no momento da assinatura do acordo. Em troca, Kiev receberia garantias de segurança, embora em formato mais limitado do que vinha sendo discutido anteriormente.
Fontes russas ouvidas pelo Financial Times afirmam que o projeto “não é um plano, mas uma composição de propostas práticas e intenções”, mas admitem que parte das exigências seria “inaceitável” para a Ucrânia. Pelo texto, o russo voltaria a ser reconhecido como idioma oficial em áreas específicas — outro pedido frequente de Moscou.
Caso avance, o documento representaria uma mudança significativa na estratégia diplomática de Donald Trump, que havia prometido encerrar a guerra em 24 horas ao assumir o cargo. Após uma reunião frustrada com Vladimir Putin em agosto, e com o aumento dos ataques mortais no front, Trump passou a pressionar por negociações diretas, ao mesmo tempo em que impôs sanções econômicas mais duras à Rússia.

Policiais ucranianos isolam área de jardim de infância em Kharkiv, atingido por drone russo — Foto: Serviços de Emergência da Ucrânia via AFP
Preocupações de Kiev
A Ucrânia, porém, recebeu a proposta com grande resistência. De acordo com o Axios, representantes americanos apresentaram o plano ao conselheiro de segurança nacional ucraniano, Rustem Umerov, que levantou objeções imediatas. Entre os pontos mais sensíveis, está a possibilidade de redução do efetivo militar ucraniano para cerca de 400 mil soldados, além de limitações no arsenal de longo alcance — exigências que especialistas avaliam como arriscadas diante do histórico de invasões russas.
Zelensky tem pedido garantias de segurança mais robustas por parte da Otan e aliados ocidentais, incluindo mecanismos internacionais para impedir novos ataques russos. Nos últimos meses, porém, várias dessas propostas foram rejeitadas por Moscou, como a criação de uma força de manutenção da paz internacional.
Uma reunião prevista para esta quarta-feira, em Ancara, entre Zelensky, o negociador americano Steve Witkoff e autoridades turcas, foi cancelada. Ainda assim, o presidente ucraniano se encontrou com Recep Tayyip Erdogan e reforçou, em pronunciamento, que “a guerra precisa terminar sem recompensar a agressão”.
Clima tenso também em Moscou
Questionado sobre o vazamento das informações, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, evitou comentários diretos e afirmou que Moscou “não tem novidades a acrescentar”. Ele declarou que a Rússia está aberta ao diálogo, mas atribuiu a pausa nas negociações à falta de interesse de Kiev em avançar nas conversas.
Enquanto isso, Washington enviou uma delegação oficial à Ucrânia. O secretário do Exército dos EUA, Dan Driscoll, chegou a Kiev para avaliar as condições no terreno e relatar a situação diretamente à Casa Branca. Segundo fontes citadas pelo Wall Street Journal, Trump considera urgente avançar em um acordo para “interromper mortes e acelerar o fim do conflito”.
O plano, no entanto, está longe de consenso. Se implementado, poderia redefinir o mapa político da região, mas também provocar forte reação interna na Ucrânia — especialmente se for percebido como uma capitulação territorial diante da invasão russa.
Foto: Tyler Hicks / The New York Times
Redação Brasil News