Na COP30, realizada em Belém, a economista francesa Esther Duflo — vencedora do Prêmio Nobel de Economia em 2019 — destacou a urgência de que países em desenvolvimento passem a adotar formas de precificação do carbono como parte de seus esforços para enfrentar a crise climática. Para Duflo, a implementação de taxas ou mecanismos semelhantes deve vir acompanhada de programas de transferência direta de renda para as comunidades mais vulneráveis, estratégia que ela considera essencial para um modelo de financiamento climático justo e eficiente.
A pesquisadora, professora do MIT, participa da conferência para apresentar sua proposta conhecida como “Just Economics”, apelidada de “Pix do clima”. A iniciativa prevê que nações ricas assumam a responsabilidade de compensar populações pobres pelos impactos do aquecimento global, enquanto governos de baixa e média renda se comprometem a criar sistemas próprios de taxação do carbono.
Segundo ela, esse equilíbrio permitiria alinhar justiça social e metas ambientais, garantindo que o dinheiro chegue de forma rápida e direta às pessoas mais afetadas.
Duflo afirmou também que a mobilização internacional para alcançar o objetivo de levantar US$ 1,3 trilhão em financiamento climático ainda enfrenta resistência, mas que existe crescente apoio popular — especialmente em países desenvolvidos — para medidas que cobrem mais impostos de grandes fortunas, empresas e produtos com alta pegada ambiental. Embora não espere que todos os acordos avancem imediatamente na COP30, ela avalia que “os primeiros passos já foram dados” e que a construção desse sistema é um processo de longo prazo.
A economista explicou ainda que precificar o carbono ajudaria países como o Brasil a tomar decisões mais responsáveis sobre exploração de petróleo, incluindo na Amazônia. De acordo com sua proposta, valores diferenciados poderiam ser aplicados conforme o nível de desenvolvimento, indo de US$ 10 por tonelada de CO₂ em países mais pobres a US$ 50 para economias maiores. “Um preço zero incentiva projetos ineficientes e não reflete o custo real da poluição”, afirmou.
Crítica contundente dos mercados voluntários de carbono, Duflo classificou esse modelo como insuficiente e arriscado, defendendo mecanismos regulados por governos nacionais ou multilaterais. Para ela, apenas regras claras e abrangentes podem evitar distorções, fraudes e práticas de greenwashing que prejudicam a proteção ambiental.
Durante sua passagem por Belém, Duflo disse que pretende dialogar com comunidades tradicionais da Amazônia para compreender suas experiências diretas com os efeitos das mudanças climáticas, especialmente em relação à insegurança alimentar, ao trabalho sob calor extremo e aos impactos sobre a saúde — problemas que ela considera centrais para entender o alcance humano da crise ambiental.
Foto: Jeremy Suyker/Bloomberg