Uma antiga lenda do século 15 narra que o nobre português D. Pedro de Meneses, ao ser questionado pelo rei Dom João I sobre como defenderia a recém-conquistada cidade de Ceuta contra os inimigos, empunhou um rústico taco de madeira — usado no jogo medieval choca — e disparou: “Senhor, este pau basta-me para defender Ceuta”. Fato ou folclore, o bastão (conhecido como aléi) virou relíquia sagrada e o militar governou por anos o enclave situado no extremo norte do continente africano, a apenas 14 quilômetros de distância da Península Ibérica.

Se no início das Grandes Navegações a tomada de Ceuta, em agosto de 1415, representou o marco zero da expansão ultramarina de Portugal — servindo de modelo para o que mais tarde ocorreria na costa brasileira —, hoje o território de 80 mil habitantes ostenta um status geopolítico singular. Ao lado de Melilla, Ceuta é um enclave soberano da Espanha cravado na África, funcionando como a única fronteira terrestre direta entre o continente africano e a União Europeia.
“São fósseis histórico-políticos da Europa e do expansionismo do grande capital mercantil e industrial a partir do século 15. São os pés de gigante no continente africano”, conceitua o historiador Paulo Henrique Martinez, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
De entreposto fenício e refúgio de Santo Antônio à União Ibérica
A ocupação humana da península de Ceuta remonta à Antiguidade. Povoada originalmente por fenícios no século 7 a.C., a região passou pelas mãos de gregos, púnicos, berberes e foi anexada ao Império Romano sob o governo de Calígula, no ano 40 d.C., recebendo o nome de Septem Fratres (“Sete Irmãos”, em referência aos montes locais), termo que evoluiu etimologicamente para Ceuta. Nos séculos seguintes, a posição estratégica atrai os vândalos, o Império Bizantino e, a partir do século 8, uma sucessão de califados e dinastias islâmicas.
A relevância da praça comercial atraía viajantes e religiosos de toda a Europa. Em 1220, o frei lisboeta que mais tarde seria canonizado como Santo Antônio de Pádua desembarcou nos portos de Ceuta em sua primeira missão evangelizadora na África antes de partir para Marraquexe e, posteriormente, para a Itália.
| Período Histórico | Domínio / Fase | Impacto Estratégico em Ceuta |
| Século VII a.C. – Séc. V d.C. | Fenícios, Púnicos e Romanos | Fundação da cidadela e batismo como Septem Fratres |
| Século VIII – 1415 | Califados Islâmicos e Taifas | Expansão comercial e auge urbano com 30 mil moradores |
| 1415 – 1580 | Domínio da Coroa Portuguesa | Início do império colonial e criação da diocese católica |
| 1580 – 1668 | União Ibérica e Aclamação | Transição de soberania para a Espanha no Tratado de Lisboa |
Por que a cidade preferiu a Espanha a Portugal?
A grande virada na soberania de Ceuta ocorreu durante o período da União Ibérica (1580–1640), quando as coroas de Portugal e Espanha foram unificadas sob o comando dos Habsburgos. Quando os portugueses restauraram sua independência em 1640 sob a dinastia de Bragança, a população e as elites locais de Ceuta tomaram uma decisão atípica: optaram por continuar leais ao rei da Espanha, Filipe IV.
A escolha foi motivada pela dependência econômica e geográfica. Sendo a Espanha a principal fornecedora de mantimentos e proteção militar à praça africana, a integração com Madri era mais vantajosa. O status espanhol foi ratificado definitivamente anos mais tarde, pelo Tratado de Lisboa de 1668.
Com a independência do Marrocos em 1956, Ceuta permaneceu sob a administração de Madri como uma cidade autônoma. Atualmente, além do peso histórico das fortalezas e da Igreja de Nossa Senhora da África, a localidade é o epicentro de complexas pressões migratórias e diplomáticas, simbolizando a divisão física entre o desenvolvimento europeu e o continente africano.

Foto: Domínio Público / Redação – Thiago Salles