A cerca de 336 metros da entrada da Caverna de Bruniquel, no sudoeste da França, jaz uma das maiores revelações da arqueologia moderna: centenas de estalagmites cuidadosamente quebradas e organizadas em grandes anéis. O complexo, datado de 176.500 anos atrás, foi construído de forma planejada muito antes da chegada do Homo sapiens à Europa. A descoberta comprova a capacidade de organização coletiva, o domínio do fogo e o planejamento elaborado dos neandertais em ambientes totalmente subterrâneos.

Nas profundezas da Caverna de Bruniquel, em uma região onde a iluminação solar jamais penetra, pesquisadores identificaram duas estruturas anelares principais e quatro formações menores feitas com fragmentos de estalagmites — chamados de espeleofatos. No total, a construção reúne cerca de 400 peças de calcita que juntas somam entre 2,1 e 2,4 toneladas de material transportado, empilhado e nivelado com o suporte de calços.
A confirmação da idade impressionante das estruturas ocorreu por meio do método de datação por séries de urânio aplicado sobre a nova camada de calcita que cresceu acima dos fragmentos reorganizados. Os resultados fixaram a criação da obra em aproximadamente 176.500 anos atrás. Para acessar o local, os antigos construtores precisaram dominar técnicas avançadas de iluminação artificial com fogo, superando passagens estreitas e a escuridão absoluta para trabalhar no ambiente subterrâneo.
Embora o propósito exato dos anéis permaneça sem uma resposta definitiva pela ciência — oscilando entre hipóteses de refúgio, espaço prático ou comportamento simbólico —, a descoberta mudou radicalmente a perspectiva arqueológica sobre a inteligência neandertal. A obra exige um nível de planejamento, divisão de tarefas e trabalho em equipe que desafia antigas teorias e posiciona a Caverna de Bruniquel como uma das construções humanas mais antigas já registradas na Terra.

Foto: Etienne FABRE / SSAC
Redação – Thiago Salles