Uma investigação realizada pela Escola de Segurança Multidimensional da USP (ESEM-USP) mostra que os dispositivos eletrônicos de nicotina, conhecidos como vapes, seguem proliferando no mercado paulista, apesar da proibição pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A estimativa é de que o setor movimente cerca de R$ 5,8 milhões por dia, o equivalente a aproximadamente R$ 2,12 bilhões por ano, somente no estado de São Paulo.
Dos cerca de 3.000 entrevistados que participaram do levantamento, cerca de 815.757 pessoas relataram ter usado vapes nos últimos 30 dias no estado – o que revela uma penetração significativa do produto na população paulista. Ademais, a simulação realizada pelos pesquisadores indica que o estado deixa de arrecadar mais de R$ 3 bilhões em impostos com esses produtos, uma vez que operam fora da legalidade fiscal.
O estudo destaca que a proibição, longe de eliminar o mercado, acaba por empurrar a operação para o setor ilícito, sob domínio de organizações criminosas que veem nos vapes uma fonte de lucro estratégica. “O regime de proibição, em vez de eliminar os mercados de bens e serviços ilegais, acaba por transferi-los para a esfera do crime organizado”, afirma o coordenador da pesquisa.
Além do impacto econômico, há preocupação sanitária: os dispositivos frequentemente contêm compostos não regulamentados que podem oferecer riscos à saúde pulmonar e cardiovascular, sobretudo entre jovens. Um levantamento anterior já apontava que adolescentes estão entre os principais usuários.
Diante dos dados, especialistas defendem que o combate ao fenômeno demande uma abordagem multifacetada: além de repressão ao comércio ilegal, há necessidade de políticas públicas voltadas à vigilância, educação em saúde e intervenção precoce. O relatório da USP sugere ainda que uma eventual regulamentação combinada a políticas fiscais poderia reduzir o circuito paralelo e gerar receitas aos cofres públicos, estimadas em mais R$ 13,7 bilhões ao ano se os vapes fossem tratados sob regime legal.
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