Uma ampla operação de engenharia marítima conduzida pelo Vietnã está mudando o mapa do Mar do Sul da China. Nos últimos meses, o país ampliou significativamente suas áreas de terra artificial nas disputadas Ilhas Spratly, transformando recifes e formações marítimas em estruturas permanentes capazes de abrigar portos, sistemas de comunicação e instalações estratégicas.
Segundo levantamento divulgado pela Asia Maritime Transparency Initiative (AMTI), o Vietnã acrescentou cerca de 216 hectares de novas áreas aterradas apenas no último ano. Com isso, a extensão total de terras artificiais controladas por Hanói na região alcançou aproximadamente 11,2 quilômetros quadrados, consolidando uma das maiores expansões territoriais realizadas no arquipélago.
As obras envolvem dragagem de areia, aterramento de recifes e construção de infraestrutura em áreas antes parcialmente submersas. O avanço mais expressivo ocorreu em Barque Canada Reef, considerado atualmente a maior instalação vietnamita nas Spratly. Após concluir essa etapa, o governo vietnamita deu sequência a novos projetos em outros pontos estratégicos do arquipélago.
Além da ampliação territorial, o país também investe na construção de estruturas portuárias. Três novos portos estão em desenvolvimento e elevam para 15 o número total de instalações desse tipo nas Spratly. Dessas estruturas, 11 foram erguidas apenas desde 2021, demonstrando uma forte aceleração dos investimentos na região.
Especialistas apontam que a expansão aumenta a capacidade logística e operacional do Vietnã em áreas remotas do oceano. Embora nem todas as instalações tenham finalidade militar declarada, portos, sistemas de navegação e centros de comunicação podem servir de apoio para embarcações governamentais, operações de patrulhamento e atividades de segurança marítima.
Imagens de satélite também identificaram a instalação de equipamentos avançados de comunicação e navegação em algumas bases vietnamitas. Entre eles estão estruturas semelhantes às utilizadas para orientação de aeronaves e embarcações em regiões afastadas do continente.
O crescimento das áreas aterradas também provoca preocupação ambiental. A dragagem altera a formação natural dos recifes, remove sedimentos e impacta ecossistemas marinhos considerados essenciais para a biodiversidade da região. De acordo com o relatório, aproximadamente 16,7 quilômetros quadrados de recifes já sofreram algum tipo de impacto decorrente das obras vietnamitas.
A movimentação ocorre em meio a uma longa disputa territorial envolvendo China, Vietnã, Filipinas, Malásia e Brunei. O Mar do Sul da China é uma das rotas marítimas mais importantes do planeta, concentrando intenso fluxo comercial, recursos pesqueiros e potenciais reservas energéticas.
A China continua liderando em área total construída nas Spratly, com mais de 22 quilômetros quadrados de terras artificiais, mas o avanço vietnamita demonstra que a disputa está longe de terminar. Enquanto os países reforçam sua presença física na região, novas obras continuam transformando recifes isolados em verdadeiras bases permanentes no oceano.
A ampliação das ilhas artificiais reforça a importância estratégica das Spratly e evidencia que a disputa pelo controle do Mar do Sul da China segue avançando muito além das negociações diplomáticas, produzindo mudanças concretas tanto na geografia quanto no equilíbrio de poder da região.
Foto: Asia Maritime Transparency Initiative (AMTI)
Redação – Ana Flavia