Após seis décadas, Justiça Militar arquiva processo contra nove chineses perseguidos na ditadura.

Brasil

Um dos episódios mais obscuros do regime militar brasileiro chegou ao fim, mais de seis décadas depois. A Justiça Militar decidiu arquivar o processo aberto em 1964 contra nove cidadãos chineses presos nos primeiros dias após o golpe. O grupo, que incluía jornalistas e representantes comerciais, foi acusado pelo regime da época de espionagem e tentativa de implantar ideais maoístas no Brasil — acusações que nunca foram comprovadas.

A prisão ocorreu em 3 de abril de 1964, quando agentes do governo do então governador Carlos Lacerda, aliado dos militares, detiveram os estrangeiros sem flagrante e sem mandado. Eles foram submetidos a tortura e interrogatórios no Dops, e permaneceram encarcerados por um ano até serem expulsos do país.

Mesmo sem evidências concretas, o Ministério Público Militar denunciou os chineses por supostos crimes contra a segurança nacional. Entre as justificativas da denúncia estavam reportagens que mencionavam desigualdade social no Brasil e notas comerciais que, segundo o regime, seriam fachada para atividades de espionagem.

A defesa ficou a cargo do histórico advogado Sobral Pinto, que, mesmo diante da falta de provas, viu seus clientes serem condenados a dez anos de prisão. A sentença, marcada pelo viés ideológico da época, citava riscos à “democracia cristã e liberal” e sustentava-se em indícios frágeis.

Em 1965, Sobral Pinto pediu ao então presidente Castello Branco o perdão dos condenados. A resposta oficial foi expulsar os estrangeiros do território nacional. O recurso que pedia a anulação da condenação ficou engavetado no Superior Tribunal Militar (STM) por 61 anos, ignorando o fim da ditadura, a prescrição do processo e a morte de oito dos nove réus.

O caso só retornou à pauta após um pedido de João Vicente Goulart, filho do presidente deposto, para que o tribunal reconhecesse o encerramento definitivo do processo. Em 23 de outubro, o STM finalmente determinou o arquivamento, destacando que a prescrição já havia ocorrido em 1981. O acórdão, publicado discretamente, coloca fim a um processo gigantesco: 50 volumes, 133 apensos e 18 anexos.

O episódio impactou profundamente as relações diplomáticas entre Brasil e China, que só seriam normalizadas muitos anos depois. Detalhes das torturas e perseguições estão reunidos no livro O caso dos nove chineses, de Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo. O único sobrevivente, o jornalista Ju Qingdong, hoje com 95 anos, relembra os abusos e ameaças sofridos durante o encarceramento.

Foto: Arquivo / 22-12-1964

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *