Negociação entre EUA e Irã chega ao fim de semana sob ameaça de colapso antes mesmo da primeira reunião.

Internacional

As delegações dos Estados Unidos e do Irã devem se reunir neste fim de semana em Islamabad, no Paquistão, em uma tentativa de abrir um canal diplomático após dias de tensão militar e acusações mútuas de descumprimento da trégua temporária anunciada na terça-feira. A comitiva americana embarcou com o vice-presidente JD Vance à frente, acompanhado do enviado especial Steve Witkoff e de Jared Kushner. Do lado iraniano, o cenário ainda era tratado com cautela, mas Reuters apontou que Mohammad Baqer Qalibaf e o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, figuram entre os principais nomes da negociação.

O encontro, se confirmado nos termos atuais, poderá se tornar o contato de mais alto nível entre Washington e Teerã desde a Revolução Islâmica de 1979. Mesmo assim, o clima está longe de ser de confiança. Integrantes da Casa Branca disseram à Reuters que o governo americano chega à rodada de diálogo com forte ceticismo, especialmente diante da avaliação de que ainda não está claro se os negociadores iranianos têm margem real para fechar compromissos de peso.

Antes de deixar Washington, JD Vance afirmou que os Estados Unidos estariam dispostos a negociar, desde que o Irã atuasse de boa-fé. A fala veio acompanhada de um tom de advertência, em meio à percepção americana de que a mesa de diálogo pode ser usada por Teerã para ganhar tempo sem ceder nos pontos considerados centrais por Washington.

Do lado iraniano, as exigências apresentadas elevaram ainda mais a tensão antes do início formal das conversas. Autoridades iranianas sustentam que a trégua precisa incluir também a frente envolvendo o Hezbollah no Líbano e defendem a liberação de ativos iranianos bloqueados por sanções. Essas condições passaram a ser vistas como um dos principais riscos para o esvaziamento da rodada diplomática antes mesmo de sua abertura.

Outro ponto explosivo é o Estreito de Ormuz. A Casa Branca já admite dificuldade para restabelecer rapidamente o fluxo normal de embarcações pela rota, mesmo que as conversas avancem. Reuters informou que persistem fortes divergências sobre o controle da passagem marítima, vital para o comércio global de petróleo, e sobre as condições para sua reabertura plena.

O programa nuclear iraniano segue como o núcleo mais sensível do impasse. Segundo a Reuters, a proposta americana inclui exigências como o abandono de estoques de urânio enriquecido, o fim de novo enriquecimento em território iraniano, restrições ao programa de mísseis e o encerramento do apoio a aliados regionais. Já o Irã mantém a defesa do direito de enriquecimento para fins civis e vincula qualquer avanço mais amplo ao alívio de sanções.

Além das questões nucleares e energéticas, o conflito paralelo no Líbano ameaça contaminar toda a rodada. Reuters relatou que o Irã e o Paquistão sustentam que houve entendimento de que a pausa deveria alcançar também a campanha israelense contra o Hezbollah, enquanto Israel rejeitou essa interpretação e continuou os ataques. Essa disputa sobre o que realmente está incluído no cessar-fogo é um dos fatores que mais enfraquecem a chance de um avanço rápido.

Com Islamabad sob forte esquema de segurança e o Paquistão tentando se afirmar como mediador confiável para os dois lados, a expectativa internacional gira menos em torno de um acordo imediato e mais sobre a possibilidade de evitar novo colapso militar. Por enquanto, o que existe é uma negociação cercada de pressão, ameaças e diferenças profundas, com poucas garantias de que o fim de semana produzirá um entendimento real.

Foto: Jacquelyn Martin/Pool via Reuters
Redação – Thiago Salles

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