O governo russo elevou o tom no debate internacional sobre a guerra na Ucrânia ao afirmar que não é Moscou, mas sim Kiev, quem estaria bloqueando um possível acordo de paz. A declaração foi feita nesta quinta-feira pelo porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, que disse concordar integralmente com a avaliação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Em entrevista recente, Trump afirmou que o presidente russo, Vladimir Putin, estaria disposto a negociar o fim do conflito, enquanto a Ucrânia demonstraria menor disposição para um entendimento. Questionado sobre o motivo de as negociações lideradas pelos EUA ainda não terem produzido resultados concretos, Trump foi direto ao apontar Zelenskiy como o principal obstáculo.
Para o Kremlin, a posição russa é clara e conhecida por todas as partes envolvidas. “O presidente Putin e o lado russo permanecem abertos ao diálogo”, declarou Peskov, acrescentando que essa postura já foi apresentada aos negociadores norte-americanos, ao próprio Trump e à liderança ucraniana.
A fala russa contrasta fortemente com a visão de aliados europeus, que acusam Moscou de prolongar o conflito para ampliar o controle territorial e reduzir o impacto de novas sanções ocidentais. Atualmente, a Rússia ocupa cerca de um quinto do território ucraniano, incluindo a Crimeia, anexada em 2014, e reivindica áreas adicionais na região de Donetsk.
Enquanto Moscou exige a retirada de tropas ucranianas de regiões reivindicadas, Kiev rejeita qualquer cessão territorial e defende o fim dos combates ao longo das linhas de frente atuais. Propostas dos Estados Unidos incluem a criação de uma zona econômica especial caso a Ucrânia aceite recuar militarmente — ideia que enfrenta forte resistência interna.
As negociações recentes também se concentram em possíveis garantias de segurança para uma Ucrânia no pós-guerra. No entanto, autoridades europeias alertam que dificilmente o Kremlin aceitará algumas das condições discutidas. O clima de desconfiança se agravou após a Rússia acusar a Ucrânia de tentar atacar uma residência de Putin, alegação negada por Kiev.
Mesmo diante das tensões, Peskov afirmou que Moscou está disposta a receber o enviado especial de Trump, Steve Witkoff, e o genro do presidente americano, Jared Kushner, para novas rodadas de conversas, assim que uma data for definida.
O impasse diplomático mantém o maior conflito em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial sem uma solução à vista, enquanto acusações cruzadas seguem moldando a narrativa internacional sobre quem, afinal, impede a paz.

A guerra entre Rússia e Ucrânia começou por um conjunto de fatores históricos, políticos e geoestratégicos, que se acumularam ao longo de anos e explodiram em conflito aberto em 2022. Eis os principais motivos, de forma clara e objetiva:
1) Disputa geopolítica e a OTAN
A Rússia se opõe à aproximação da Ucrânia com o Ocidente, especialmente com a OTAN.
Moscou vê a expansão da aliança militar para o Leste Europeu como ameaça direta à sua segurança, enquanto Kiev busca proteção e integração com Europa e EUA.
2) Mudança política na Ucrânia (2014)
Em 2014, protestos populares derrubaram um governo ucraniano pró-Rússia e colocaram no poder líderes mais alinhados ao Ocidente.
O Kremlin considerou o processo um “golpe apoiado pelo Ocidente”, rompendo de vez as relações.
3) Anexação da Crimeia
Ainda em 2014, a Rússia anexou a Crimeia, território ucraniano estratégico no Mar Negro.
A comunidade internacional considerou a ação ilegal. Desde então, o conflito passou a ser latente.
4) Guerra no leste da Ucrânia (Donbas)
Grupos separatistas pró-Rússia, com apoio de Moscou, iniciaram combates nas regiões de Donetsk e Luhansk.
Esse conflito de baixa intensidade matou milhares de pessoas antes mesmo da guerra atual.
5) Identidade e soberania
O presidente russo Vladimir Putin afirma que Rússia e Ucrânia formariam “um só povo”, negando a plena soberania ucraniana.
Para a Ucrânia, essa visão ameaça sua existência como Estado independente.
6) Invasão de 2022
Em fevereiro de 2022, a Rússia lançou uma invasão em larga escala, alegando:
- “desmilitarizar” a Ucrânia
- impedir sua entrada na OTAN
- “proteger” populações russófonas
Para a Ucrânia e o Ocidente, tratou-se de agressão não provocada e violação do direito internacional.

Foto: Alexander Kazakov / Sputnik / Pool via Reuters
Redação Brasil News