Rota internacional: como fuzis estrangeiros chegam às mãos do crime no Brasil.

Brasil

A recente megaoperação no Rio de Janeiro, que resultou em 121 mortes e mais de 100 prisões, reacendeu o debate sobre o armamento pesado utilizado pelo crime organizado. Entre as apreensões, dezenas de fuzis de alto calibre voltaram a expor um problema que atravessa fronteiras: como essas armas chegam às mãos das facções brasileiras.

Segundo especialistas em segurança pública, a maior parte dos fuzis apreendidos no país tem origem estrangeira, principalmente nos Estados Unidos e países da Europa. Uma investigação da Polícia Militar do Rio apontou que mais de 90% das armas recolhidas em 2024 eram importadas, sendo 60% fabricadas nos EUA. Outras procediam de Israel, Alemanha, Áustria e República Tcheca.

Essas armas de guerra costumam entrar no país por rotas ilegais que passam pelo Paraguai, onde empresas registradas importam armamentos de forma regular e depois os desviam para grupos criminosos no Brasil. Há também casos de envio direto, como o registrado no Aeroporto do Galeão, no Rio, em 2017, quando 60 fuzis foram encontrados escondidos em contêineres com aquecedores de piscina, enviados por um brasileiro que vivia nos EUA.

Além do tráfico internacional, a fabricação clandestina e o desvio de armas legais também têm papel relevante. De acordo com o Instituto Sou da Paz, a flexibilização das regras durante o governo Bolsonaro facilitou a compra de fuzis por colecionadores e atiradores (CACs), o que teria contribuído para o aumento de desvios ao mercado ilegal.

“Durante quatro anos, uma única pessoa podia adquirir até 30 armas de grosso calibre. Parte desse armamento acabou nas mãos de criminosos”, explicou a pesquisadora Natália Pollachi.

Outro fator preocupante é a produção artesanal de armas. Peças importadas de forma separada — vendidas livremente em sites internacionais — são montadas em oficinas clandestinas no país. Em Santa Bárbara d’Oeste (SP), a polícia fechou uma fábrica disfarçada de empresa aeronáutica, equipada com maquinário industrial de alta precisão para a montagem de fuzis.

Os pesquisadores alertam que o aumento do poder de fogo das facções obriga as forças de segurança a empregar operações cada vez maiores e mais arriscadas, com uso de blindados e centenas de agentes, como visto na Operação Contenção.

Para o governador Cláudio Castro, é essencial envolver a indústria internacional de armas no combate ao tráfico. “Os fabricantes precisam cooperar com os governos no rastreamento e controle desses produtos”, afirmou.

Com o avanço das rotas ilegais, brechas legais e fábricas clandestinas, especialistas alertam que o desafio vai muito além do policiamento — exigindo cooperação internacional e monitoramento rigoroso das armas fabricadas e comercializadas no mundo.

Foto: Policiais escoltam um suspeito preso durante a Operação Contenção, na favela da Vila Cruzeiro, no complexo da Penha, no Rio de Janeiro, em 28 de outubro de 2025. AFP via Getty Images

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