Um grupo de neurocientistas dos Estados Unidos acaba de dar um passo inédito rumo à compreensão do funcionamento do cérebro humano. Pesquisadores da Universidade Tufts e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) desenvolveram o CogLinks, um modelo computacional que imita o comportamento real dos circuitos neurais — uma espécie de “simulador de voo” do cérebro.
A ferramenta, descrita em artigo publicado na revista Nature Communications, permite observar como o cérebro aprende, toma decisões e se adapta a mudanças, oferecendo novas respostas sobre o que acontece quando esses processos falham — fenômenos comuns em doenças como transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), esquizofrenia e TDAH.
Diferente das inteligências artificiais tradicionais, o CogLinks não é uma “caixa-preta”: ele reproduz conexões biológicas e mostra passo a passo como os neurônios interagem, como se fosse um cérebro virtual em ação. Em testes, os cientistas simularam a comunicação entre o córtex pré-frontal e o tálamo, áreas associadas ao raciocínio e à flexibilidade cognitiva. Ao enfraquecer essa ligação, o sistema passou a reagir de forma automática e lenta — comportamento semelhante ao de pacientes com transtornos mentais.
Os resultados foram confirmados por exames de ressonância magnética funcional (fMRI) realizados em voluntários. As imagens revelaram que o tálamo mediodorsal atua como um “interruptor neural”, controlando o equilíbrio entre ações baseadas em hábito e decisões conscientes.
Segundo o neurocientista Michael Halassa, líder da pesquisa, o objetivo é usar o modelo para desvendar como o cérebro lida com a incerteza e como mutações genéticas alteram circuitos mentais. “Se pudermos entender quando e por que o cérebro se desvia do normal, poderemos aprender a realinhá-lo”, explica.
O estudo inaugura uma nova fronteira na ciência chamada “psiquiatria algorítmica”, que une biologia, computação e neurociência para criar tratamentos personalizados em saúde mental. A equipe planeja aplicar o CogLinks para estudar como os genes afetam o comportamento neural e desenvolver terapias mais precisas para transtornos mentais complexos.
O tálamo ajuda o cérebro a perceber quando o contexto muda e a mudar de estratégia. — Foto: AdobeStock.