O medo de uma nova mobilização militar está levando parte dos russos em idade de recrutamento a deixar o país antes do fim das eleições para a Duma de Estado, realizadas entre esta sexta-feira (18) e domingo (20).
O movimento ocorre em meio a rumores de que o Kremlin poderia anunciar uma nova convocação depois da votação. Não há, até agora, confirmação oficial de que isso ocorrerá. O presidente Vladimir Putin negou publicamente que uma nova mobilização esteja sendo preparada, e veículos russos independentes contabilizaram ao menos 17 desmentidos oficiais sobre uma convocação iminente desde o verão europeu.
Apesar das negativas, organizações que auxiliam cidadãos russos a deixar o país relatam crescimento na procura por orientação e apoio.
O projeto anti-guerra Ark, que presta assistência a russos que deixam o país, afirma que o volume de pedidos aumentou desde julho. A organização atribui o movimento principalmente ao receio de restrições de saída e à memória da mobilização parcial de 2022.
Trauma de 2022 alimenta novo temor
Em setembro de 2022, Putin anunciou uma mobilização parcial que convocou cerca de 300 mil reservistas para reforçar as forças russas na guerra contra a Ucrânia.
A decisão provocou uma corrida para fora do país, especialmente entre homens em idade militar. Filas se formaram em fronteiras terrestres com Geórgia, Cazaquistão e outros países, enquanto voos internacionais ficaram lotados.
É justamente essa experiência que alimenta o comportamento atual.
Ativistas ouvidos por organizações independentes afirmam que alguns russos preferem sair antes de uma eventual convocação porque temem que, depois da emissão de uma ordem militar, possam perder automaticamente o direito de cruzar a fronteira.
Sistema eletrônico aumenta preocupação
Nos últimos anos, a Rússia implantou um sistema eletrônico de notificações militares.
A legislação permite que restrições sejam aplicadas a pessoas convocadas, incluindo impedimentos para deixar o país após o registro oficial da convocação.
Esse mecanismo alimenta a preocupação entre homens que já cumpriram serviço militar ou fazem parte da reserva.
Relatos divulgados por organizações independentes também mencionam casos recentes de russos que receberam notificações eletrônicas e decidiram sair rapidamente do país antes que eventuais restrições fossem efetivadas.
Eleições aumentam especulações
As eleições parlamentares russas começaram nesta sexta-feira e vão definir as 450 cadeiras da Duma de Estado, além de governos e assembleias regionais.
A votação acontece em um ambiente político fortemente controlado pelo Kremlin. Os principais partidos autorizados a disputar as eleições apoiam, em diferentes graus, a política externa do governo e a continuidade da guerra. O partido Yabloko, associado a uma posição contrária ao conflito, ficou fora da disputa.
Críticos do Kremlin e autoridades ucranianas afirmam que Moscou poderia evitar uma medida impopular antes das urnas e só anunciar uma nova mobilização depois da votação.
Essa avaliação, porém, não foi comprovada.
A analista Tatiana Stanovaya, do Carnegie Russia Eurasia Center, disse considerar uma nova convocação imediata pouco provável justamente pelo esforço do governo russo em tranquilizar a população.
Kiev fala em centenas de milhares de novos soldados
O governo ucraniano tem afirmado que a Rússia pretende ampliar significativamente seu contingente militar.
Autoridades de Kiev citaram informações de inteligência segundo as quais Moscou poderia buscar centenas de milhares de novos militares entre 2026 e 2027.
O Kremlin não confirmou esses números, e as estimativas ucranianas devem ser tratadas como alegações de uma das partes envolvidas diretamente na guerra.
Enquanto isso, a Rússia continua tentando ampliar suas forças principalmente por meio de contratos remunerados, bônus regionais e programas de recrutamento voluntário.
Armênia, Geórgia e Cazaquistão estão entre os destinos
Entre os destinos mais procurados por russos estão países que permitem entrada sem visto ou com exigências reduzidas, como Armênia, Geórgia e Cazaquistão.
Ainda não há números oficiais que permitam medir a dimensão exata da saída atual.
Ela também não pode ser comparada, neste momento, ao êxodo observado em 2022, quando centenas de milhares de pessoas deixaram a Rússia nas semanas seguintes à mobilização parcial.
Por enquanto, o que está documentado é um aumento do medo e da procura por informações sobre como deixar o país. A existência de uma nova mobilização após as eleições continua sendo uma possibilidade discutida por críticos, autoridades ucranianas e analistas — mas não um fato confirmado.
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Redação – Thiago Salles