Uma estrutura tão fina que quase desaparece diante dos olhos pode esconder uma resistência impressionante. A seda produzida pelas aranhas é considerada um dos materiais naturais mais intrigantes estudados pela ciência e, agora, pesquisadores brasileiros trabalham para transformar suas propriedades em uma tecnologia capaz de ser produzida em escala industrial.
O projeto é liderado pelo pesquisador Elíbio Rech, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília. A equipe investiga maneiras de produzir fios sintéticos inspirados na composição da seda das aranhas utilizando ferramentas de biotecnologia e engenharia genética.
A expectativa é que, se a produção em larga escala se tornar economicamente viável, o biomaterial possa ser empregado em diferentes setores.
Por que a seda das aranhas chama tanta atenção?
A característica mais impressionante desse material está na combinação de propriedades que normalmente são difíceis de encontrar juntas.
A seda de determinadas aranhas apresenta elevada resistência mecânica sem perder a capacidade de se deformar e retornar à sua forma original. Além disso, trata-se de um material de origem biológica e potencialmente biodegradável.
Essa combinação desperta interesse para aplicações em que resistência, flexibilidade e menor impacto ambiental sejam importantes.
De acordo com o pesquisador envolvido no projeto, um cabo com espessura semelhante à de uma caneta e produzido com fios inspirados na seda das aranhas poderia, teoricamente, suportar forças enormes, chegando ao ponto de ser utilizado para movimentar uma aeronave de grande porte sem se romper.
A comparação ajuda a dimensionar o potencial do material, embora a aplicação prática dependa de fatores como fabricação, composição, escala e condições específicas de utilização.
Uma alternativa para materiais convencionais
Outra característica que chama atenção é a comparação com materiais sintéticos de alta resistência, como o Kevlar, utilizado em equipamentos de proteção.
A proposta dos pesquisadores não é simplesmente substituir todos os materiais existentes, mas aproveitar as propriedades da seda para desenvolver uma nova categoria de biomateriais.
Entre as possibilidades estudadas estão fios para suturas cirúrgicas, componentes resistentes para veículos, materiais utilizados em equipamentos de proteção e peças que possam ser empregadas na indústria aeronáutica.
A área médica também é considerada promissora, especialmente devido à possibilidade de desenvolver fios biodegradáveis com características mecânicas específicas.
O desafio está em produzir em grande quantidade
Apesar dos resultados obtidos em laboratório, existe um obstáculo importante antes que produtos comerciais possam chegar ao mercado.
Aranhas não são uma alternativa simples para produção industrial em larga escala. Por isso, os pesquisadores trabalham com técnicas de biotecnologia e engenharia genética para obter proteínas semelhantes às presentes na seda natural e transformá-las em fibras.
A equipe afirma já dominar etapas relacionadas à produção de fios sintéticos em laboratório. O grande desafio agora é encontrar um processo que permita fabricar o material de maneira rápida, segura e economicamente competitiva.
Essa etapa é fundamental. Um material pode apresentar propriedades extraordinárias em laboratório, mas sua utilização comercial depende da capacidade de produzir grandes quantidades mantendo qualidade e custos aceitáveis.
Da teia para o futuro
A pesquisa brasileira mostra como características encontradas na natureza podem inspirar soluções para problemas tecnológicos.
Se os obstáculos de produção forem superados, materiais inspirados na seda das aranhas poderão encontrar aplicações em setores muito diferentes, incluindo medicina, transporte, indústria automobilística e aeronáutica.
O mais curioso é que uma das tecnologias potencialmente mais resistentes do futuro pode ter como inspiração uma estrutura produzida por um animal minúsculo.
A teia que normalmente passa despercebida em um canto da casa pode, graças à ciência, ajudar a criar materiais capazes de combinar leveza, elasticidade, resistência e biodegradabilidade em uma única estrutura.
Foto: Reprodução
Redação – Ana Flavia