O avanço silencioso e devastador do conflito no Leste Europeu cobrou o seu preço mais alto da população russa. O histórico contrato social do país — no qual os cidadãos se mantinham afastados da política em troca de as autoridades os deixarem em paz — foi definitivamente rompido. A guerra cruzou as fronteiras, invadiu o cotidiano das grandes cidades e transformou-se em um problema coletivo. Estações ferroviárias em Moscou, que costumavam ficar repletas de turistas em busca do litoral sul durante o verão, agora exibem trens estranhamente vazios para a Crimeia, plataformas dominadas pelo cáqui militar e uma atmosfera pesada de ansiedade generalizada.
A sensação de vulnerabilidade é confirmada pelos números. Uma pesquisa da Fundação de Opinião Pública (FOM), instituto ligado ao próprio Kremlin, apontou que 55% dos entrevistados relataram forte ansiedade entre seus colegas e parentes. Esse pânico foi alimentado pela impressionante expansão do raio de ação dos drones ucranianos. Antes restritas às províncias fronteiriças de Kursk e Belgorod, as aeronaves não tripuladas atingiram a maior refinaria da Rússia, em Omsk, localizada a cerca de 2.500 quilômetros da linha de frente, além de destruírem instalações petrolíferas perto de Novorossiysk.
O impacto econômico e estrutural dessas investidas gerou um severo racionamento de gasolina em escala nacional. Motoristas enfrentam filas de até três horas para garantir uma cota diária máxima de 20 a 30 litros, enquanto na Crimeia e em Novorossiysk o comércio de combustível no varejo foi terminantemente proibido para civis. A escassez já provoca um efeito cascata na logística e na inflação dos alimentos: o preço da batata disparou 4,5% em apenas um mês, e agricultores alertam que as colheitas correm o risco de apodrecer no campo por falta de insumo para o maquinário. Especialistas em grupos focais apontam que o sentimento público está mudando rapidamente da frustração para um ódio profundo contra a administração de Vladimir Putin, evidenciado pelo abismo intransponível entre a retórica triunfalista estatal e a realidade do front atolado em um pântano.
Para agravar o cenário de terror psicológico, crescem os indícios de que testes para uma nova e iminente rodada de mobilização forçada de soldados já estão em curso na região de Penza, a sudeste de Moscou. Relatos desesperados de moradores indicam que homens estão sendo caçados em locais públicos e em batidas porta a porta por oficiais do exército para assinar contratos militares, esvaziando as ruas locais. Enquanto o Kremlin tenta camuflar as ações alegando busca por desertores, famílias trancam as portas e mantém as cortinas fechadas o dia todo para proteger seus parentes. O descontentamento e os rumores de que as tropas russas podem voltar suas armas contra o próprio governo se espalham de forma inédita na internet, expondo uma sociedade exausta que já não compreende os propósitos da guerra.
Foto: AP Photo/Efrem Lukatsky / Redação – Thiago Salles