Padre excomungado em Brasília publica carta com duras críticas ao alto clero e cita “ritos de macumba” em igrejas.

Brasil

A aplicação do decreto de excomunhão emitido pelo Vaticano contra a Fraternidade Sacerdotal Pio X (FSSPX) — no que representa o primeiro cisma formal da Igreja Católica em 38 anos — deflagrou uma crise aberta na Arquidiocese de Brasília. O padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa, punido com a excomunhão após declarar sua adesão ao grupo tradicionalista, publicou nesta quinta-feira (16) uma contundente carta aberta de oito páginas direcionada aos fiéis do Distrito Federal. No documento, o sacerdote não apenas rejeita a validade da sanção canônica, como também dispara graves acusações contra o alto clero brasileiro, mencionando a conivência com supostos rituais sincréticos em templos católicos e lembrando casos de abusos sexuais na Igreja.

Segundo o relato do padre, sua trajetória na Arquidiocese de Brasília foi marcada por constantes embates com bispos e demais clérigos para “defender a fé católica”. Françoá revelou que, em setembro de 2022, chegou a denunciar publicamente a ocorrência de rituais de religiões de matriz africana na Paróquia de Sobradinho e na própria Catedral Metropolitana de Brasília. Na ocasião, um vídeo de sua denúncia viralizou nas redes sociais, gerando uma forte repreensão da arquidiocese e uma ordem expressa para que o conteúdo fosse retirado do ar. O sacerdote afirma ainda ter sido removido de sua paróquia em 2024 por incluir traduções ao latim dentro do Missal Romano em português.

Para justificar sua desobediência à hierarquia do Vaticano, o sacerdote traçou paralelos históricos com figuras da Igreja que foram condenadas em sua época e posteriormente canonizadas.

“Não podemos aceitar os erros do Concílio Vaticano II, entre eles, a liberdade religiosa, o ecumenismo, o humanismo horizontal, a reforma da Missa, a colegial-sinodalidade”, declarou o padre Françoá Costa, citando exemplos como Santo Atanásio e Santa Joana D’Arc.

Posição oficial e o peso da excomunhão

Procurada para se manifestar sobre o teor da carta e as acusações de Françoá, a Arquidiocese de Brasília informou, por meio de nota oficial, que seu posicionamento está estritamente alinhado com as diretrizes da Santa Sé, conforme expresso na “Nota Pastoral sobre a denominada ‘Capela Santo Atanásio'”. De acordo com o documento emitido pela arquidiocese, a adesão formal do padre à FSSPX consumou o estado de cisma e excomunhão automática (latae sententiae).

A Igreja de Brasília alerta os fiéis de que todos os atos ministeriais de Françoá são agora considerados ilícitos pela Igreja Romana. Mais do que isso, a nota adverte que os sacramentos da confissão e do matrimônio administrados por ele na Capela Santo Atanásio são juridicamente nulos. A arquidiocese estendeu o alerta aos fiéis brasilienses, destacando que aqueles que frequentarem voluntária e regularmente as cerimônias conduzidas pelo padre também serão considerados cismáticos e incorrerão no risco de excomunhão.

O cisma tradicionalista da FSSPX

A crise litúrgica e doutrinária remonta à fundação da FSSPX em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre. O grupo tradicionalista rejeita as reformas modernizadoras implementadas pelo Concílio Vaticano II na década de 1960 e preserva estritamente o rito “tridentino” da missa (celebrado em latim, com o sacerdote de costas para os fiéis e voltado para o altar).

O racha atual se consolidou após a ordenação de quatro novos bispos pela fraternidade sem o consentimento prévio do papa, ato considerado de “natureza cismática” pelo Vaticano. Estima-se que a FSSPX conte atualmente com uma estrutura global influente de cerca de 730 sacerdotes e milhares de fiéis em mais de 50 países.

Foto: Padre Françoá Costa/Facebook/Reprodução / Redação – Thiago Salles

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