Outubro Rosa e câncer de mama entram em pauta com Aline do Espírito Santo.

Saúde e Bem Estar

O Outubro Rosa amplia a conscientização sobre o câncer de mama, mas também chama a atenção para uma questão que permanece durante todo o ano: a dificuldade de transformar informação em cuidado. Entre o receio de receber um diagnóstico, as dúvidas sobre os exames e os desafios de acesso aos serviços de saúde, muitas mulheres ainda adiam avaliações importantes.

A campanha representa uma oportunidade de esclarecer informações, incentivar o reconhecimento de alterações nas mamas e reforçar a importância do acompanhamento adequado a cada faixa etária e perfil de risco. Mais do que estimular a realização de exames, a proposta envolve compreender quando eles são indicados e quais medidas podem contribuir para a saúde feminina.

Para a mastologista Aline Oliveira do Espírito Santo, que atua no Rio de Janeiro, o acolhimento também faz parte desse processo. A médica destaca que conhecer os próprios fatores de risco, compreender as possibilidades de investigação e receber orientações claras pode ajudar as pacientes a enfrentar momentos de insegurança.

Ao abordar as principais dúvidas relacionadas ao câncer de mama, Aline explica as recomendações de rastreamento, os sinais que exigem avaliação, os avanços terapêuticos e o papel da assistência humanizada.

Outubro Rosa e a importância da conscientização

1. O Outubro Rosa já faz parte do calendário mundial de saúde. Por que essa campanha continua sendo necessária?

Porque ainda existe uma distância importante entre ter informação e conseguir transformá-la em cuidado.

O Outubro Rosa tem um papel relevante porque coloca a saúde das mamas em evidência e abre espaço para conversas que muitas vezes são adiadas durante o restante do ano.

Gosto de pensar que a campanha não deve se limitar a um mês. Ela precisa funcionar como um lembrete para que cada mulher conheça sua história de saúde, identifique possíveis fatores de risco, mantenha o acompanhamento recomendado para sua faixa etária e procure avaliação diante de alterações novas ou persistentes nas mamas.

O Outubro Rosa passa. O cuidado com a saúde precisa permanecer.

2. Quando falamos em câncer de mama, ainda existe muito medo. Como transformar esse sentimento em informação?

O medo é humano. O problema é quando ele paralisa.

Uma mulher que percebe um nódulo, uma alteração na mama ou recebe um resultado inesperado pode imaginar imediatamente o pior cenário. É justamente nesse momento que a informação correta e o acolhimento fazem diferença.

Nem todo nódulo é câncer, assim como nem todo exame alterado significa uma doença maligna.

O papel do mastologista é avaliar o conjunto de informações, incluindo sintomas, exame físico, exames de imagem e, quando necessário, biópsia, para esclarecer o diagnóstico e orientar cada etapa com segurança.

Costumo dizer às minhas pacientes que não precisamos antecipar o sofrimento antes de termos um diagnóstico. Precisamos investigar.

3. Qual é a importância do diagnóstico precoce?

Identificar o câncer de mama em fases iniciais geralmente amplia as possibilidades de tratamento e pode permitir abordagens mais conservadoras, dependendo das características do tumor.

É importante esclarecer, porém, que o diagnóstico precoce não significa simplesmente realizar um exame. Ele depende de uma sequência de cuidados que envolve acesso aos serviços de saúde, rastreamento quando indicado, reconhecimento de sinais suspeitos, avaliação médica e continuidade da investigação diante de alguma alteração.

Também precisamos diferenciar o rastreamento da investigação diagnóstica. O primeiro é destinado a mulheres sem sinais ou sintomas. Quando existe uma alteração suspeita, a avaliação deve ser direcionada ao esclarecimento daquela condição.

Cada etapa importa, e o prognóstico depende de fatores como o tipo de tumor, o estágio da doença e a resposta ao tratamento.

Mamografia e sinais que merecem atenção

4. Afinal, a partir de que idade a mulher precisa fazer mamografia?

Essa questão merece ser explicada com cuidado porque existem recomendações diferentes entre a política de rastreamento populacional do Ministério da Saúde e as orientações das sociedades médicas.

Em 2025, o Ministério da Saúde atualizou a estratégia de rastreamento populacional no SUS, priorizando mulheres de 50 a 74 anos, a cada dois anos. Também passou a garantir o acesso à mamografia para mulheres de 40 a 49 anos sem sintomas, mediante orientação profissional sobre os possíveis benefícios e riscos nessa faixa etária.

Por outro lado, a Sociedade Brasileira de Mastologia, o Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem e a FEBRASGO recomendam o rastreamento mamográfico anual dos 40 aos 74 anos.

Na prática, a decisão sobre quando iniciar e qual periodicidade adotar deve considerar a idade, o risco individual, a história familiar e outras características da paciente.

Existe ainda uma diferença fundamental: quando a mulher apresenta um sintoma ou uma alteração suspeita, não estamos falando de rastreamento, mas de investigação diagnóstica, que deve ser realizada independentemente da idade.

O cuidado precisa ser individualizado.

5. Quais alterações nas mamas devem chamar a atenção da mulher?

Qualquer mudança nova, persistente ou progressiva merece avaliação.

Entre os sinais de alerta estão nódulos endurecidos ou persistentes, alterações na pele da mama, como retração ou aspecto semelhante à casca de laranja, retração recente do mamilo, secreção espontânea e sanguinolenta, mudanças no formato ou tamanho da mama, feridas que não cicatrizam e aumento persistente de gânglios na axila ou na região acima da clavícula.

É importante lembrar que algumas condições benignas também podem provocar sintomas semelhantes. Portanto, perceber uma alteração não significa necessariamente ter câncer, mas indica a necessidade de avaliação.

Conhecer o próprio corpo ajuda a reconhecer mudanças e procurar atendimento. Entretanto, o autoexame não substitui a avaliação clínica nem os exames de rastreamento quando indicados.

6. O que a senhora diria às mulheres que evitam a mamografia por medo da dor?

Eu diria que conversem com o profissional responsável pela realização do exame.

A mamografia envolve a compressão das mamas e pode causar desconforto, que varia de mulher para mulher. Em geral, essa sensação é breve.

A equipe pode orientar sobre o posicionamento e, quando possível, escolher um momento mais confortável para a paciente.

O medo ou o desconforto não devem impedir a realização de um exame quando ele está indicado.

Também é importante lembrar que a mamografia utilizada no rastreamento não substitui a avaliação de sintomas. Quando existe uma alteração, a investigação pode exigir mamografia diagnóstica, ultrassonografia ou outros exames, conforme as características do caso.

Alguns minutos de desconforto podem representar uma oportunidade importante de cuidar da própria saúde.

Fatores de risco e prevenção

7. Quem não tem casos de câncer de mama na família pode ficar tranquila?

A ausência de histórico familiar não significa ausência de risco.

Ter familiares com câncer de mama ou de ovário pode aumentar a probabilidade de desenvolver a doença, especialmente quando existem vários casos na família, diagnósticos em idade jovem, câncer de mama em homens ou associação com determinados outros tipos de câncer.

Nessas situações, pode ser indicada uma avaliação especializada do risco hereditário.

Entretanto, o câncer de mama também ocorre em mulheres sem uma história familiar marcante ou sem mutações hereditárias conhecidas.

Por isso, todas devem conhecer seus fatores de risco e seguir as recomendações de acompanhamento adequadas à idade e às características individuais.

8. É possível prevenir o câncer de mama?

Não é possível evitar todos os casos, porque o câncer de mama resulta da combinação de fatores genéticos, hormonais, ambientais e relacionados ao estilo de vida. No entanto, algumas medidas podem reduzir o risco.

Praticar atividade física regularmente, manter um peso saudável, evitar ou reduzir o consumo de bebidas alcoólicas, não fumar e adotar uma alimentação equilibrada são atitudes importantes.

A amamentação, quando possível, também está associada à redução do risco de câncer de mama. Além disso, o uso de terapias hormonais e contraceptivos deve ser discutido individualmente com um profissional de saúde, considerando benefícios e riscos.

Precisamos diferenciar prevenção de rastreamento. Os hábitos saudáveis podem diminuir determinados fatores de risco, mas não eliminam a possibilidade da doença. Já o rastreamento busca identificar alterações suspeitas antes do aparecimento de sintomas.

Prevenir também significa conhecer os próprios riscos, manter os cuidados recomendados e procurar avaliação diante de mudanças nas mamas.

Tratamentos e atendimento humanizado

9. O que mudou no tratamento do câncer de mama nos últimos anos?

A mastologia e a oncologia evoluíram muito.

Hoje sabemos que o câncer de mama não é uma única doença. Existem diferentes subtipos, estágios e características biológicas, e essas informações permitem planejar tratamentos cada vez mais individualizados.

Dependendo do caso, podem ser indicados cirurgia, radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia, terapias-alvo, imunoterapia ou uma combinação dessas estratégias.

A escolha depende do tipo e do estágio do tumor, dos resultados dos exames, das condições clínicas da paciente e de suas preferências, sempre em decisão compartilhada com a equipe responsável.

Em algumas situações, o tratamento começa pela cirurgia. Em outras, pode ser necessário iniciar com tratamento sistêmico antes do procedimento.

Não existe um único caminho para todas as pacientes.

Mas considero que existe uma evolução tão importante quanto a tecnológica: passamos a olhar cada vez mais para a mulher que existe por trás do diagnóstico.

Não tratamos apenas uma imagem, um nódulo ou um tumor. Tratamos uma mulher que tem uma história, uma família, sonhos, medos, trabalho, autoestima e uma vida inteira acontecendo.

10. Qual é o papel do atendimento humanizado durante essa jornada?

É fundamental.

Receber um diagnóstico de câncer pode ser um dos momentos mais delicados da vida de uma mulher. Ela precisa de medicina baseada em evidências, mas também precisa ser ouvida, compreender as informações e participar das decisões sobre seu tratamento.

Explicar o diagnóstico em linguagem clara, responder às dúvidas, conversar sobre as possibilidades terapêuticas, avaliar sintomas e efeitos colaterais e respeitar o tempo de cada paciente fazem parte do cuidado.

O atendimento também deve considerar saúde mental, sexualidade, imagem corporal, fertilidade quando pertinente, reabilitação e qualidade de vida.

Humanização não significa abrir mão da ciência. É justamente unir ciência, competência técnica e empatia.

Essa é a medicina em que acredito.

11. Por que a senhora considera importante abordar a saúde da mulher de maneira mais ampla?

Porque a mulher não é uma mama.

A mastologia faz parte da saúde integral feminina, embora não substitua o acompanhamento com outros profissionais quando necessário.

Durante uma consulta, podemos conversar sobre ciclo menstrual, contracepção, menopausa, saúde óssea, hábitos de vida, histórico familiar, uso de medicamentos e outros aspectos que influenciam a saúde mamária e o bem-estar.

Também é importante reconhecer os limites de cada área e encaminhar a paciente para ginecologia, oncologia, genética, psicologia, fisioterapia ou outras especialidades quando houver indicação.

É impossível cuidar verdadeiramente de uma mulher olhando apenas para uma parte do corpo.

Cuidar da mama também é cuidar da mulher como um todo.

12. Que mensagem a senhora gostaria de deixar para as mulheres neste Outubro Rosa?

Não espere outubro para lembrar de você.

Não espere um sintoma para começar a cuidar da sua saúde. Mantenha o acompanhamento recomendado para o seu perfil, não deixe o medo impedir uma consulta e procure avaliação diante de qualquer alteração nova ou persistente nas mamas.

Busque informações de qualidade, conheça sua história familiar e seus fatores de risco. Converse com um profissional de saúde sobre o rastreamento mais adequado para você e lembre-se de que o autoexame não substitui a mamografia ou a avaliação clínica quando esses cuidados estão indicados.

E, se um dia o diagnóstico vier, lembre-se de que ele não é sinônimo de sentença.

A medicina evoluiu, os tratamentos avançaram e aprendemos cada vez mais a tratar cada mulher de forma individualizada. O prognóstico depende de diversos fatores, incluindo o tipo e o estágio da doença.

O Outubro Rosa é sobre câncer de mama, mas também é sobre vida. Sobre lembrar cada mulher de que ela também precisa estar na própria lista de prioridades.

Porque cuidar de si não é egoísmo. É amor, é responsabilidade e é vida.


Sobre a entrevistada

Aline Oliveira do Espírito Santo é médica mastologista e cirurgiã de mama, com atuação dedicada ao diagnóstico e tratamento das doenças mamárias e à saúde integral da mulher.

Após a graduação em Medicina, realizou residência médica em Ginecologia e Obstetrícia no Hospital da Polícia Militar e, posteriormente, em Mastologia no Hospital Federal dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Possui também título de área de atuação em Mamografia.

Sua experiência clínica e cirúrgica abrange a investigação de alterações mamárias, a realização de procedimentos diagnósticos e o tratamento cirúrgico de doenças da mama. A profissional também atua no Exército Brasileiro e em serviços de saúde públicos e privados no Rio de Janeiro.

Em sua prática, destaca a importância da medicina baseada em evidências, da comunicação clara e da participação das pacientes nas decisões sobre o próprio cuidado.

“Acredito em uma medicina que una ciência, competência técnica e empatia. Porque, por trás de cada diagnóstico, existe uma mulher, uma história e uma vida que precisa continuar.”

Aline Oliveira do Espírito Santo — CRM-RJ 52-96056-0 — RQE de Mastologia a confirmar

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