Na cidade costeira de Mbour, crianças convivem diariamente com uma dor difícil de explicar: a ausência dos pais que desapareceram tentando chegar clandestinamente à Europa em pequenas embarcações conhecidas como pirogas.

Entre elas está Fallou, de 12 anos, que perdeu a mãe após um naufrágio ocorrido durante uma tentativa de travessia para o continente europeu. Desde então, segundo familiares, o menino se tornou silencioso e evita falar sobre o trauma vivido.
A situação se repete em dezenas de famílias senegalesas. Muitas mães, pais e jovens desaparecem no mar tentando fugir da pobreza extrema, do desemprego e da crise econômica que afeta diversas regiões do país africano.
Segundo organizações humanitárias, milhares de migrantes morreram ou desapareceram nos últimos anos tentando alcançar a Espanha pela perigosa rota atlântica.

Os filhos dessas vítimas acabaram recebendo no Senegal um apelido doloroso: “os que ficam”. São crianças que convivem com o chamado “luto ambíguo”, quando não existe confirmação clara sobre a morte ou desaparecimento definitivo dos pais.
Em muitos casos, as famílias evitam conversar sobre o assunto por medo, vergonha ou trauma psicológico. Algumas crianças acreditam até hoje que os pais continuam vivos em outro país.
Outra menina afetada pela tragédia é Sokhna, de 11 anos. O pai desapareceu após a embarcação em que viajava pegar fogo durante a travessia marítima. Segundo a mãe, a garota frequentemente acorda assustada durante a noite chamando pelo pai.
Especialistas afirmam que o impacto psicológico nessas crianças é profundo e pode provocar ansiedade, depressão, dificuldades escolares e isolamento social.
Além do sofrimento emocional, muitas famílias enfrentam uma situação financeira ainda mais grave após perder o principal responsável pelo sustento da casa. Crianças acabam deixando os estudos para trabalhar e ajudar nas despesas básicas.
Diante do aumento desses casos, organizações humanitárias e entidades religiosas iniciaram projetos de apoio psicológico para órfãos de migrantes desaparecidos.
Em centros de acolhimento no Senegal, psicólogos e assistentes sociais tentam ajudar as crianças a lidarem com o trauma e romperem o silêncio sobre o desaparecimento dos pais.
Especialistas alertam que o problema vai além da migração irregular e expõe uma crise humanitária marcada por pobreza, abandono social e falta de oportunidades para milhares de famílias africanas.

Foto: Patrick Meinhardt
Redação – Thiago Salles