Mães vivem drama silencioso atrás das grades e enfrentam o medo de perder os próprios filhos.

Brasil

A maternidade, que normalmente representa um período de acolhimento e esperança, torna-se um dos maiores desafios para mulheres que vivem em unidades prisionais no Brasil. Além das dificuldades impostas pelo encarceramento, muitas enfrentam a falta de estrutura adequada para gestação, parto e cuidados com os recém-nascidos, convivendo diariamente com o medo de serem separadas dos próprios filhos.

O relato de uma detenta, cuja identidade foi preservada para garantir sua segurança e a da criança, retrata a angústia de descobrir a gravidez logo após entrar no sistema prisional. Segundo ela, o maior temor durante toda a gestação era que a filha fosse encaminhada para um abrigo, tornando incerto o futuro da menina e diminuindo as chances de permanecerem juntas.

Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que a maior parte das mulheres presas no país é formada por jovens, negras ou pardas, de baixa renda e mães. Muitas respondem por crimes ligados ao tráfico de drogas ou delitos patrimoniais, além de possuírem histórico de vulnerabilidade social e acesso limitado a serviços públicos essenciais.

A estrutura oferecida nas unidades prisionais também preocupa especialistas. Apenas uma pequena parcela dos presídios femininos conta com espaços apropriados para gestantes, lactantes ou berçários, tornando a gravidez dentro do cárcere ainda mais delicada e considerada de alto risco.

Especialistas em saúde mental alertam que o ambiente prisional potencializa problemas emocionais comuns da gestação, como ansiedade e depressão. A incerteza sobre o futuro dos filhos, a ausência de apoio familiar e o receio constante da separação contribuem para um sofrimento psicológico ainda maior.

Outro ponto frequentemente citado é a vulnerabilidade dessas mulheres durante o parto. Segundo profissionais da área, muitas enfrentam atendimento inadequado e situações classificadas como violência obstétrica, transformando um momento que deveria ser de acolhimento em uma experiência traumática.

Embora a legislação brasileira determine que os bebês possam permanecer com as mães por, no mínimo, seis meses, especialistas afirmam que, em diversas unidades, esse período acaba sendo tratado como limite máximo. A separação precoce pode provocar impactos emocionais tanto para a criança quanto para a mãe, afetando o desenvolvimento afetivo do bebê e aumentando quadros de depressão, ansiedade e sentimento de culpa nas mulheres.

Mesmo diante das dificuldades, muitas mães encontram apoio dentro do próprio presídio. A solidariedade entre as internas cria pequenas redes de ajuda, nas quais roupas, fraldas e itens para os bebês são compartilhados, amenizando parte das dificuldades enfrentadas diariamente.

A mulher entrevistada relata que recebe poucas visitas da família e encontra nas companheiras de cela o suporte necessário para seguir em frente. Apesar da dura realidade, ela mantém viva a esperança de reconstruir a própria vida ao lado da filha após deixar o sistema prisional.

A bebê nasceu prematura, após uma gestação marcada por complicações causadas pela pré-eclâmpsia. Ainda assim, a mãe afirma que seu maior sonho continua sendo conquistar uma nova oportunidade fora das grades, trabalhando e oferecendo uma vida melhor para a filha.

Foto: Fabrícia Braga/Terra (Imagem ilustrativa produzida por IA)

Redação – Ana Flavia

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