Cólica que atrapalha a rotina precisa de atenção, alerta Suéllen Monteiro

Saúde e Bem Estar

Certificada em cirurgia robótica, ginecologista fala sobre dor, infertilidade e o protagonismo feminino no tratamento

Sentir dor não é normal. Essa frase, repetida pela ginecologista e obstetra Suéllen Monteiro Pereira, sintetiza sua atuação em Campos dos Goytacazes (RJ) e na região Norte Fluminense. Primeira médica da família, ela decidiu seguir a carreira ainda na infância, sem referências próximas, mas com a convicção de que a medicina seria seu caminho. “Eu sempre quis ser médica, mesmo sem ter ninguém da área na família. Foi algo que aconteceu naturalmente e meus pais foram minha base para chegar até aqui”, relembra.

Da neurocirurgia à ginecologia

Durante a graduação, Suéllen se interessou inicialmente pela neurocirurgia, mas foi no contato com a ginecologia e obstetrícia que encontrou sua vocação. “Eu queria ser resolutiva. Via pacientes com doenças crônicas e pensava em oferecer um cuidado que realmente desse resposta. A ginecologia me encontrou nesse sentido”, explica.

Formada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Campos (FMC), ela realizou residência em Ginecologia e Obstetrícia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e no Hospital Universitário Pedro Ernesto, onde teve contato direto com casos complexos de endometriose pelo Sistema único de Saúde (SUS). Essa experiência marcou sua forma de trabalhar e consolidou a importância da escuta como parte do tratamento.

De volta à cidade natal, trouxe diferenciais técnicos que não estavam disponíveis na região, como cirurgias conservadoras para mulheres com miomas que desejavam engravidar. “Era comum indicarem a retirada do útero. Eu comecei a oferecer alternativas, retirando apenas os miomas e preservando o sonho da maternidade. Ver essas pacientes engravidando depois foi transformador”, conta.

Endometriose: silêncio que adoece

Entre os temas que mais mobilizam sua prática está a endometriose. Embora atinja uma em cada dez mulheres, a doença ainda é cercada de desinformação e pode demorar até dez anos para ser diagnosticada. Para a médica, esse atraso está ligado a uma cultura de silenciamento. “Não é uma doença silenciosa. O que existe é um médico que não escuta. A mulher é ensinada a suportar a dor e acreditar que cólica forte é normal.”

Os sinais vão além das cólicas menstruais. Entre eles estão dores intensas na relação sexual, sintomas urinários ou intestinais durante o ciclo, dor lombar e diarreia recorrente. Muitas vezes, esses quadros são confundidos com infecções urinárias ou problemas gastrointestinais. “Metade das mulheres que não conseguem engravidar tem endometriose. Às vezes elas não sentem cólicas, mas apresentam dificuldade de concepção. Por isso é fundamental investigar”, reforça.

O diagnóstico passa por exames de imagem específicos, como ultrassom transvaginal com preparo intestinal ou ressonância magnética de pelve feitos por profissionais especializados. Ainda assim, a escuta continua sendo o ponto de partida. “Na minha consulta, a primeira meia hora é só de escuta. As mulheres chegam acostumadas a não serem ouvidas, e reconhecer essa dor é o início do tratamento”, aponta a ginecologista.

Quando a doença avança, pode comprometer órgãos, como intestino e bexiga, além de gerar cistos que exigem cirurgia. Nesses casos, Suéllen defende cautela. “A cirurgia deve ser planejada como uma ‘one-shot surgery’. A ideia é operar uma vez, com segurança, para não precisar repetir”, explica.

O impacto emocional também é profundo. Muitas pacientes associam dor à sexualidade, o que exige um cuidado multidisciplinar. “Quando uma mulher me diz que voltou a ter relação sem dor, eu comemoro junto. Mostrar que ela pode ter qualidade de vida muda tudo”, afirma.

Adenomiose: quando o útero se volta contra si mesmo

Outro desafio frequente é a adenomiose, considerada uma “irmã” da endometriose. Enquanto a primeira ocorre fora do útero, a adenomiose se manifesta quando o tecido endometrial invade a musculatura uterina. “É como se raízes daquela camada que deveria sangrar apenas na menstruação se infiltrassem no músculo. O útero não reconhece como algo dele e tenta expulsar, gerando dor e sangramento intenso”, detalha.

A condição costuma causar fluxos abundantes, hemorragias e pode dificultar a gestação em alguns casos. O tratamento depende do desejo reprodutivo: quando há intenção de engravidar, a conduta é voltada a aumentar as chances de concepção; quando não há, o foco é o controle da dor e do sangramento. “O objetivo pode ser diferente, mas a paciente continua sendo tratada com dignidade e de forma resolutiva”, ressalta.

Cirurgia robótica: tecnologia a serviço da precisão

A experiência em cirurgia minimamente invasiva levou Suéllen a se tornar uma das primeiras ginecologistas certificadas em cirurgia robótica no Norte Fluminense. A conquista marcou um avanço regional, já que até então a técnica estava restrita a grandes centros.

A principal diferença em relação à laparoscopia e à cirurgia robótica está na liberdade de movimentos. “Na videocirurgia, trabalhamos com pinças rígidas, limitadas. Já no robô, eu tenho os movimentos do punho reproduzidos dentro do corpo da paciente, o que me permite chegar a áreas muito pequenas com mais delicadeza e segurança”, descreve.

Essa precisão é essencial em casos de endometriose profunda, próximas a nervos, ureteres e outros órgãos nobres. Além disso, o pós-operatório tende a ser mais confortável, com menos dor, menor risco de infecção e recuperação mais rápida. “Consigo identificar lesões que muitas vezes passariam despercebidas na laparoscopia convencional”, afirma.

Para reduzir o medo de muitas pacientes, Suéllen faz questão de esclarecer: “Sou eu quem está na sala, conectada aos braços do robô. Ele é apenas uma ferramenta que amplia a capacidade do cirurgião. A tecnologia está a serviço do humano, não o contrário”, garante.

Humanização e vínculo

Apesar do uso de tecnologia de ponta, Suéllen insiste que o cuidado precisa ser também humano. Para ela, atendimento humanizado é quebrar a barreira entre o médico e a paciente e construir uma parceria. “Quando uma mulher entra na minha sala, ela não é apenas um caso de endometriose, mioma ou um procedimento a ser feito. Ela é uma pessoa com uma história, medos, dúvidas e esperanças”, reflete.

Na prática, isso significa dedicar tempo à escuta, validando não apenas sintomas físicos, mas também o impacto que eles trazem para a vida, o trabalho e os relacionamentos. “Validar o que a paciente sente é o primeiro passo para o cuidado”, afirma.

Essa lógica se reflete também na condução dos tratamentos. Ao apresentar todas as opções — das mais simples às mais complexas —, a médica defende que a decisão deve ser conjunta. “Ela deixa de ser uma paciente passiva e passa a participar ativamente de seu cuidado. Isso muda toda a relação”, diz.

Outro ponto levantado pela médica é o atendimento inclusivo. Muitas mulheres homoafetivas chegam acreditando que não precisam realizar exames de rotina ou, em alguns casos, nunca os fizeram por receio de julgamento. “Já ouvi pacientes dizerem que não precisavam colher preventivo por não terem relações heterossexuais. Isso é um mito perigoso. Todas precisam de acompanhamento. Acolher essas mulheres sem julgamento é fundamental”, defende.

Redes sociais e educação em saúde

Se antes resistia ao Instagram, hoje Suéllen reconhece o papel das redes na educação em saúde. “As próprias pacientes pediram. Percebi que, se eu não estivesse ali, outras pessoas falariam no meu lugar, muitas vezes sem base científica. Então, uso a rede para derrubar tabus e orientar com informação de qualidade”, explica.

Comunicando-se de forma clara sobre contracepção, infertilidade e endometriose, a médica ampliou seu alcance para além de Campos dos Goytacazes. Pacientes de outras cidades passaram a procurá-la, atraídas pelo conteúdo informativo e pelo acolhimento.

O próximo passo da carreira? Expandir sua clínica e estruturar um espaço maior para consolidar o modelo de atendimento humanizado. A ideia é oferecer suporte integral às pacientes que viajam para consultas e cirurgias, desde transporte até acompanhamento contínuo.

Suéllen é categórica quanto a levar dores na normalidade: “Se um médico desvalidou seus sintomas ou sugeriu a retirada do útero sem outras opções, busque outra opinião. Hoje temos tecnologia e conhecimento suficientes para tratar de forma adequada. O mais importante é que a paciente seja protagonista do próprio tratamento”, conclui.

CRM 52993034 – RQE 30794 – RQE 30795

Instagram: @drasuellenmonteiro
Site: http://www.drasuellenmonteiro.com.br
Fotos: Márcio Bruno

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