O endurecimento das políticas migratórias nos Estados Unidos, intensificado pelo governo de Donald Trump, vem mudando drasticamente os planos de muitos brasileiros que buscavam estabilidade no país. O que antes representava esperança, hoje se transforma em medo, insegurança e retorno antecipado ao Brasil.
A brasileira Silvia Santos, moradora de Sarasota, na Flórida, decidiu que deixará o país no dia 10 de dezembro. Ao lado da filha de 9 anos, ela seguirá para São Luís (MA), motivada tanto pela piora no estado de saúde da mãe quanto pelo clima de tensão em relação às fiscalizações migratórias.
Mesmo possuindo número de Social Security e autorização para trabalho temporário, Silvia relata que o medo se tornou constante. “A gente vê pessoas sendo deportadas mesmo com processo em andamento. Não me sinto mais segura”, afirma. O maior receio é o de uma possível separação da filha em uma abordagem policial.
Além da insegurança, o peso financeiro também contribuiu para a decisão. Ela trabalhava com entregas de comida e sustentava despesas nos Estados Unidos e no Brasil. “A gente trabalha só para pagar contas. Não sobra nada”, resume. Sem rede de apoio e com a rotina marcada por longas jornadas, a brasileira afirma que a filha mal conseguia aproveitar a infância.
Enquanto Silvia retorna ao Brasil, o marido permanece em território americano aguardando a análise do pedido de visto permanente.
Situação semelhante viveu Geovanne Danioti, que chegou aos Estados Unidos em 2022 e morava no interior do estado de Nova York com a esposa e os dois filhos. Com o visto vencido e após ver um colega de trabalho ser deportado durante uma audiência por infração de trânsito, ele decidiu deixar o país com a família no início de dezembro.
“Eu saía de casa com medo. Só ia do trabalho para casa. A gente via viaturas do ICE todos os dias”, relata. O temor de perder a guarda dos filhos, ambos cidadãos americanos, pesou na decisão. O plano agora é reorganizar a vida no Brasil e tentar retornar aos Estados Unidos de forma totalmente legal no futuro.
Além dos relatos individuais, pesquisas recentes confirmam que o medo se espalhou entre os imigrantes. Um levantamento nacional aponta que cerca de 20% dos estrangeiros nos EUA conhecem alguém que já foi preso, detido ou deportado desde o início do ano. Outros 40% afirmam temer que eles próprios ou familiares se tornem alvos das operações.
Mesmo assim, o chamado “sonho americano” ainda persiste. Aproximadamente 70% dos entrevistados disseram que, se pudessem voltar atrás, migrariam novamente, apesar do atual cenário.
Dados do Departamento de Segurança Interna dos EUA indicam que cerca de 1,6 milhão de pessoas solicitaram autodeportação apenas neste ano, como forma de evitar prisões inesperadas. Já entre brasileiros, o número oficial de repatriações ainda está em análise pelo Itamaraty.
Enquanto alguns retornam ao país de origem, outros optam por migrar internamente dentro dos Estados Unidos, buscando estados onde a atuação do ICE é menos rigorosa — na tentativa de ganhar tempo e manter a segurança da família.
O que antes era uma jornada em busca de oportunidades, agora tem se tornado, para muitos, uma decisão de sobrevivência emocional, familiar e até psicológica.
Foto: Octavio Jones (Reuters) e Sam Wolfe (Reuters)
Redação Brasil News