Uma peça publicitária que vem sendo compartilhada nas redes e em páginas com aparência de portal jornalístico promete um suposto “segredo” para turbinar a memória com ingredientes baratos e sem efeitos colaterais. No conteúdo, a mensagem afirma que uma bebida natural seria capaz de aumentar a produção de orexina, melhorar a clareza mental e até “reverter Alzheimer inicial em 35 dias”.
A abordagem, no entanto, repete elementos clássicos de anúncios enganosos de saúde: promessa de cura rápida, ataque à indústria farmacêutica, uso de testemunhos emocionais, urgência para assistir a um vídeo e menções a figuras públicas como forma de gerar credibilidade. A FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, já alertou consumidores sobre falsas promessas envolvendo produtos vendidos como cura ou tratamento para Alzheimer. A Associação de Alzheimer também informa que suplementos, alimentos e terapias alternativas frequentemente são divulgados como reforço de memória sem evidências sólidas de eficácia clínica.
A reportagem também verificou que, embora existam estudos científicos sobre a relação entre orexina, sono, cognição e Alzheimer, esse campo ainda é tratado de forma experimental e não sustenta as promessas absolutas presentes no anúncio. Revisões científicas apontam que a orexina está ligada a mecanismos neurológicos complexos e que sua participação na doença ainda está em investigação. Em alguns estudos, níveis aumentados de orexina também aparecem associados a piora de alterações relacionadas ao Alzheimer, o que derruba a narrativa simplista de que “ativar a orexina” resolveria o problema.
Outro ponto sensível é a identidade do suposto especialista citado na peça. Em busca por fontes públicas abertas, não foi localizada confirmação confiável de um “Dr. Yuki Nakamura, neurologista da USP” ligado ao protocolo descrito no texto viral. O que aparece em registros públicos da universidade são referências a outros nomes parecidos, mas não à divulgação desse método nem às alegações atribuídas ao anúncio. Sem comprovação documental, a menção a autoridade médica renomada pode funcionar apenas como estratégia para convencer o leitor.
As alegações do material também batem de frente com alertas regulatórios no Brasil. A Anvisa informa que suplementos alimentares não podem anunciar efeitos como aumento de foco e concentração, e já suspendeu no passado propagandas enganosas de produtos vendidos com promessa de benefício para memória. Em paralelo, entidades especializadas reforçam que, até o momento, não existe cura para Alzheimer e que qualquer suspeita de perda de memória deve ser avaliada por profissional de saúde, sem substituição por receitas caseiras ou produtos milagrosos.
Diante disso, o conteúdo viral deve ser visto com extrema cautela. Quando um anúncio promete resultado extraordinário, diz que médicos “escondem a verdade”, usa celebridades sem prova e oferece solução simples para uma doença complexa, o sinal de alerta precisa acender. Em saúde, desinformação pode atrasar diagnóstico, interromper tratamento adequado e aumentar o risco para pacientes e familiares.
Foto: banco de imagens/licenciamento a confirmar
Redação – Thiago Salles