Imagens históricas revelam como o Morro do Castelo foi apagado do mapa para transformar o Centro do Rio.

Brasil

Imagens históricas recuperadas pelo Arquivo Geral da Cidade revelam um dos capítulos mais simbólicos e controversos da formação urbana do Rio de Janeiro: a destruição do Morro do Castelo, local onde surgiram as primeiras instituições religiosas, administrativas e militares da cidade.

Entre o final do século 19 e as primeiras décadas do século 20, o morro foi gradualmente desmontado como parte de um projeto de modernização do Centro. O processo eliminou centenas de edificações coloniais, provocou a remoção forçada de moradores e redesenhou a paisagem urbana da capital.

O material histórico revela ainda um dado pouco conhecido: antes da escolha do Morro do Castelo, chegou-se a cogitar a demolição do Pão de Açúcar como alternativa para os planos de remodelação urbana — ideia que acabou descartada.

Com cerca de 184 mil metros quadrados e 63 metros de altura, o morro tinha posição estratégica, com vista ampla da Baía de Guanabara. Durante séculos, foi um dos endereços mais valorizados da cidade, reunindo poder religioso e militar. Com o avanço do século 19, passou a ser associado a problemas sanitários e epidemias, o que acelerou seu processo de estigmatização e abandono pelas elites.

A demolição ocorreu em etapas. Parte do morro começou a ser removida durante as reformas do prefeito Pereira Passos, para a abertura da então Avenida Central, atual Rio Branco. A destruição definitiva veio em 1920, sob a gestão de Carlos Sampaio, às vésperas da Exposição Internacional do Centenário da Independência, quando escavadeiras e jatos d’água passaram a dissolver a colina.

Além do discurso de higiene e progresso, historiadores apontam que interesses políticos e econômicos influenciaram a decisão. A valorização imobiliária do entorno beneficiou grupos ligados às obras de remodelação do Centro, enquanto comunidades pobres, em sua maioria negras e imigrantes, foram removidas sem políticas de reassentamento.

O apagamento do Morro do Castelo também eliminou parte importante da memória cultural da cidade. Lendas sobre túneis, objetos históricos e até tesouros enterrados surgiram durante o desmonte. Entre os críticos da destruição estava Lima Barreto, que denunciou o processo como excludente e apagador da história popular do Rio.

Antes do fim definitivo, uma última missa reuniu milhares de pessoas na antiga igreja do morro, marcando simbolicamente a despedida do local onde a cidade nasceu. Hoje, restam apenas pequenos vestígios físicos e registros históricos que mantêm viva a memória de um espaço que moldou o Rio de Janeiro.

Foto: Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Redação Brasil News

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