Produtores de Mato Grosso freiam investimentos e apostam em gestão conservadora diante de margens apertadas.

Negócios

Os grandes produtores agrícolas de Mato Grosso, estado que lidera a produção nacional de grãos e fibras, estão adotando uma postura de cautela em relação a novos investimentos. Com margens mais estreitas, custos financeiros elevados e maior risco de inadimplência, grupos que tradicionalmente expandiam áreas e modernizavam estruturas agora interrompem planos e privilegiam estabilidade operacional.

Elson Esteves, do Grupo JCN: preços têm espremido os lucros. Foto: JCN/Divulgação

Um dos exemplos é o Grupo Biancon, que opera mais de 24 mil hectares na região de Sinop. Mesmo com resultados positivos na última safra — entre eles 90 mil toneladas de soja, 78 mil de milho e 18 mil de algodão — a empresa não pretende ampliar área ou realizar grandes aquisições. Segundo o sócio Igor Biancon, o momento exige prudência: “A maior parte dos produtores está pisando no freio. Não é hora de crescer”.

A cerca de 500 km dali, o Grupo JCN compartilha da mesma avaliação. A empresa, com forte presença em Paranatinga, concentra até metade do seu faturamento no algodão. Mas os preços baixos da pluma têm reduzido as margens e limitado a capacidade de investimento. O diretor-geral, Elson Aparecido Esteves, afirma que apenas projetos antigos continuam em andamento — entre eles a recuperação de pastagens financiada em 2023 pelo programa Reverte — e que novas operações de crédito estão fora do planejamento.

A retração dos produtores coincide com maior rigidez dos bancos. Instituições financeiras revisam critérios, ampliam exigências e realizam análises mais minuciosas antes de autorizar financiamentos. Para João Adrien, head de ESG Agro do Itaú BBA, o cenário é de “muita atenção”: juros altos, custos de produção elevados e um câmbio mais valorizado encurtam ainda mais a margem dos produtores que vendem em dólar. Ele também destaca o aumento de pedidos de recuperação judicial em algumas regiões, o que amplia a aversão ao risco.

Essa combinação afeta principalmente a conversão de pastagens degradadas — área considerada essencial para expansão sem desmatamento. No programa Reverte, desenvolvido pela Syngenta em parceria com o Itaú BBA, a área recuperada caiu de 77 mil hectares em 2024 para uma projeção de 60 mil hectares em 2025. Segundo Jonas Oliveira, gerente da iniciativa, a prioridade agora é avaliar cada projeto com maior cautela, respeitando o momento desafiador para a soja e demais culturas.

Além da conversão de terras, investimentos em maquinário, armazéns e silos também foram adiados. Para muitos grupos, o foco passou a ser preservar caixa, renegociar custos e esperar um cenário mais favorável para retomada do crescimento. Enquanto isso, Mato Grosso — que frequentemente lidera discussões sobre modernização agrícola — vive um período de ajuste e análise estratégica.


Foto: Daumildo Júnior
Redação Brasil News

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